sábado, 13 de novembro de 2010

Rumo

O inferno são olhares perdidos
Em busca de coisas.
Coisas que façam sentido,
Pelo menos qualquer sentido,
Que desfaça mil direcções indefinidas.
Que me leve para bem longe
Da mob que continua sem encontrar rumo,
E que me faz perder o meu.
Sim, talvez lá longe esteja o sentido
Para qualquer coisa ou parte de mim.
E quando o encontrar,
Apenas poderei dizer:
‘Então, tu por aqui?’

Branca, como a clara das neves.

Mais uma vez estava branca e sem sinal para começar. Olhou em volta e procurou inspiração, mesmo onde ela parecia não existir. Apertou a cabeça, esventrou a letargia e cansou-se. Cansou-se de esperar, de olhar em volta, de iniciar a viagem. Cansou-se de colidir com o vazio. Cansou-se de bater sempre às mesmas portas. Pedia-se um choque frontal, que acabasse com o gerúndio dos dias, com esse mundo de dias cozidos uns aos outros. Com uma teia de neurónios urbanos enganados que viajam em piloto-automático.

Artigo indefinido

Nunca pára.
Respira disforme a consciência
de quem não a tem.
Suporta e separa a vida
De uma existência das 9 às 5.
Arrota vocábulos
Que se perdem por entre segundo escondidos.
Escolhe assim.
É mais fácil.
Prefere o vazio das palavras inconscientes,
À responsabilidade de ver mais.

Vodka-laranja

Se alguém me oferecesse um politico pelo meu aniversário atirava-o para uma tigela. Mas não se pense que lhe deitava leite por cima e o comia ao pequeno-almoço. Afogava-o em vodka. Mas quando ele pensasse que o ia saborear pela manhã com um travo sofisticado a laranja, puro engano. Ateava-lhe fogo e depois, para parecer que o queria salvar, pegava no extintor e apagava-o, na verdadeira acepção da palavra. Claro que depois viriam as autoridades fazer-me milhares de perguntas. ‘Onde estava o politico antes de entrar no prato?’ e muitas outras. ‘Vinha embrulhado numa caixa com um laço azul.’Claro que ninguém iria acreditar nisso. E eu inventava uma outra história qualquer, que deixasse o vodka de fora.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

José tinha a certeza que o mundo ia acabar em 2012, como alguém há muito anos atrás, tinha previsto. Era impossível ser de outra maneira. O mundo corria de um lado para o outro, sem grande rumo, aproveitando estes últimos momentos. As pessoas levavam tudo ao limite. As amizades, os amores, as mentiras, as pressões, os olhares. Tudo como se não houvesse amanhã. Toda a gente com medo que alguém, com poderes divinos, resolvesse antecipar esta reunião cósmica. Por isso, a maratona continuava. Conta-se que havia pessoas a atrasarem os relógios vários anos, para terem aquela sensação de ainda faltar muito tempo. Como aqueles cinco minutos que, quando somos crianças, conseguimos ganhar à hora de ir deitar. Outros haviam optado por marcar vários eventos ao mesmo tempo, dedobrando-se em corpo e alma, conseguindo assim estar em dois sítios ao mesmo tempo. Outros ainda, compravam tempo aos mais desfavorecidos que, em troca, se tinham que colocar na fila nos primeiros lugares, quando o grande Fim chegassse. Depois de constatar esta realidade que o rodeava, José era ainda um homem em habituação ao fim do mundo. Nunca tinah ligado muito a isso, sempre foi o senhor do seu próprio tempo, até aquele dia. Sentiu um arrepio que o deixou imóvel a olhar para o relógio. ‘Ainda agora eram duas da tarde!’. Assim, decidiu que a partir daquele exacto momento também ia conseguir ser como o resto das pessoas. Seguir este padrão de comportamento que o ia deixar muito mais tranquilo para enfrentar e viver o tempo que faltava. Por isso, chegou-se ao balcão do café, a abarrotar de pessoas a viver intensamente, e olhou a empregada de frente. ‘Um café duplo, se faz favor!’. ‘É só um pouco que tem pessoas à frente’. apontando para a mole de gente que se acotovelava ali. José, num gesto brusco, puxa de uma arma e dispara dois tiros. ‘Menos dois que chegam a 2012’. Em seguida, olhou novamente a empregada e disse: ‘Sorry, mas tenho de enviar hoje ainda!’

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dia sim

Anibal conduzia aquele carro há já vários anos. E aquilo nem lhe fazia grande confusão. Levar, trazer. Olhar o espelho, ajeitar a gravata. O mesmo ritual. Abrir a porta, carregar, fechar a porta, carregar. Mas naquele dia, já com o carro em andamento sentia-se desconfortável. Não sabia bem porquê. Olhou-se ao espelho. Tudo normal. Olhou para os lados, nada. Parou o carro e dirigiu-se à traseira. Abriu vigorosamente a porta e olhou-o de frente. ‘Há anos que ando contigo de um lado para o outro e nunca houve confusões. O que é que se passa?’ Uns segundos e nada. Até que ouviu um ligeiro som vindo lá de dentro, como que pedindo para sair. ‘Mau, temos festa!’, pensou. Era a primeira vez que passava por aquilo. Agora é que se lembrava de querer sair, mesmo antes de chegar a casa. E nós que tínhamos um acordo, bem selado, há anos atrás. Nem eu fazia perguntas, nem ela me dava respostas. O som tornava-se mais aflitivo, à medida que passavam os segundos. Anibal começou a suar. Tirou o casaco e desmanchou o nó gravata preta. ‘Abro...., não abro.’ O som era cada vez mais estridente e aquilo começava a mexer-se mesmo. Esfregou os olhos e beliscou-se. Sim, era verdade. Chegou-se mais perto e, com uma mão numa das pegas, arrastou a tampa. Lá dentro nada, absolutamente nada. Hoje, aquele espaço era todo seu. E o dia também.

domingo, 10 de outubro de 2010

10-10-10

Passavam já dez minutos das dez quando ele chegou à porta. Estava outra vez dez minutos atrasado. Hesitou em tocar à campainha. Era já a décima vez que o fazia neste mês de Outubro. Por muito que tentasse não conseguia. Já tinha tentado adiantar esses dez minutos, mas fosse por que caminho fosse, arranjava sempre maneira de os perder. Andava a pensar em adiantar vinte, mas isso só daqui a dez anos. Tocou e esperou a resposta. Nada. Voltou a tocar. À décima vez desistiu. Sentou-se no chão da entrada, naquela pedra que gelava dez vezes mais que o frio que se entranhava no corpo. Ao fundo ouvia as badaladas da torre: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9,...Esperou e nada. Tinha chegado uma hora mais cedo. Olhou de novo o relógio e acertou os ponteiros. Sorriu.