sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Cicatrizações


Há duas semanas abri uma cicatriz. Fazia já muitos anos que não abria nenhuma. Passei toda a minha vida a fechá-las. Mas desta vez empenhei-me a fundo a abrir esta. Contratei pessoal habilitado e fechei-me sobre mim próprio. Quando acordei do transe lá estava ela. Bem aberta. Durante alguns dias andou bem fresquinha e com tiques de ‘não me toques!’. Mas eu não lhe dei assim tanta importância, porque mesmo que aberta de propósito, há que fechá-la o quanto antes. Andei de volta dela, tentando convencê-la que o melhor era fechar. ‘Que não, que ainda nem tinha duas semanas de actividade, que ainda não tinha vivido o suficiente.? Queria aspirar ar e levá-lo lá para dentro. Tinha ouvido dizer que o inspirar o ar purificava por dentro. E eu acrescentei, por dentro e por fora. Por isso, deixei-a andar mais uns dias, purificar-se um dia de cada vez. Há quem diga que, por muito que se queira, essa coisa da purificação tem muito que se lhe diga. Eu acho que se diga e que se faça. Porque não acredito em purificações só com palavras. É preciso actos. Por isso, deixei-a enganar-se este tempo todo. É para aprender. Até que ontem disse-me baixinho: ‘olha, fecha-me lá que eu já estou farta deste sítio e também já estou bem purificadinha’. Olhei-a com desprezo e fechei-a. Pelo menos foi isso que eu lhe disse.

2 comentários:

Marta disse...

Haverá sempre cicatrizes por abrir. E outras por fechar.
Beijinho

Eria disse...

Essas feridas que não fecham, essas cicatrizes que não se curam, enfim, lindíssimo o texto!