segunda-feira, 27 de abril de 2015

Travo

Travo. Travo de repente. Aquele travo misturava-se com um doce instantâneo e enlatado que se tinha instalado, com malas e bagagens, alugando aquela semana. Travo outra vez. Talvez seja parte da vida a dizer que ia em excesso de velocidade. À volta ninguém travava daquela maneira. Agora travo a fundo. Deixo sair o fumo que ensombrava os meus fantasmas. Travei a tempo. A tempo de impedir que a consciência derrapasse por entre palavras ocas e três clichés. Travo o cliché para ele não me travar a mim. Talvez daqui a pouco volte a travar a intensidade dos dias que se siamezavam uns aos outros com pontos de alinhavo. Travarei um alinhavo sempre que conseguir. Ou talvez seja que me trave a mim, quando vier em contramão. Travo. Travo agora muito, mas mesmo muito de repente, para que a linha não teça uma interminável píton à volta do meu pescoço. Não consigo asfixiar. Não tenho vocação. Tocou-me. Tocou-me ao de leve. Deixou um pouco daquele veneno que colhe e entorpece de lenta em lentamente. Abandono-me à sorte, imóvel. Sim, agora derrapei. Não evitei a linha. Pisei-a, com arrogância. Deixei-lhe a minha marca, mesmo que ao de levemente. Ignoro se travarei de novo. Olho o merengue, sem lhe sentir o travo. Imagino corpos suados colados em Havana. Morno. Quente. Exausto. O travo hipnotiza-me, encanta-me. Lembra-me Pedro Juan. Não é um travo grátis. Tenho de subir e conquistar todas as ameias em redor. Se Pedro Juan aqui estivesse dir-me-ia simplesmente ‘Tudo se resume a isso. Sobe, entra e serve-te.’ Gosto da crueza de Pedro Juan, como se o conhecesse pessoalmente. Não traves. Às vezes, é preciso derrapar com quantas forças se tem. Derrapar não é coisa que me assuste. Mudei de pneus há pouco tempo.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Destino traçado


Lucas olhou oito dias atrás. Definitivamente aquele não era o seu traço. Desenhou, desenhou-se uma e outra vez. Talvez tivesse perdido parte do seu bilhete de identidade. Pegou na borracha e apagou ainda com mais força a sua própria expressão. Talvez o seu destino já estivesse traçado. Mas não por si.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Palavras em cruzada

A vida é feita de palavras cruzadas.
Mas nunca se conseguem encher todos os espaços. É sempre preciso virar tudo ao contrário e encontrar as soluções. Odeio absolutismos.

A vida é feita de palavras cruzadas.
Contracções que se cruzam com capitais de distrito e notas musicais. Outras vezes com nomes próprios e oceanos ou pratos típicos. Gosto que a vida me leve à bolina.

A vida é feita de palavras cruzadas.
Advérbios disfarçados de estados de espírito. Cruzamentos sem prioridade.
Há palavras que fazem parar o trânsito.

A vida é feita de palavras cruzadas.
Das que ninguém percebe. Quadrados pretos e brancos à espera de adjectivos ou verbos de circunstância. Eu sou, tu talvez, ele quem sabe. Sempre com pontos de interrogação na primeira pessoa. Duvidas?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sê-lo

Podia voar. Sim, podia voar. Mas não é isso que a marca. Desliza, por vezes envergonhada, entre palavras e cenários, à espera de criar o seu. Talvez consiga encontrar o início da trama, talvez faça um esboço e depois arrisque o traço definitivo na tela. Falta definir as personagens. Não a sua, porque a essa apenas lhe falta uma única coisa: coragem. E a coragem não se compra, não se importa, não se pede nem se recebe pelo correio. Os selos são muito caros.

domingo, 7 de agosto de 2011

Tic-tac

Às cinco para as seis
um coração bate atrasado,
descontrolado, bebendo shots de xanax,
segue batidas que enrolam
o tempo para trás.

Pobres daqueles
que acreditam nas horas certas,
abertas somente ao metrónomo fechado do tempo,
que sonham ampulhetas quebradas
pelo tédio dos dias.

Às cinco para as seis
um coração batia atrasado,
descontrolado, num tic-tac com defeito,
que só abranda, partido
pela traição de um beijo de puta.

domingo, 31 de julho de 2011

Re-Evoluções

Filipe estava deitado ao sol a pensar na vida. Mesmo de olhos fechados estava inquieto, perdido. E quanto mais pensava, mais inquieto ficava. ‘Pára de pensar’, dizia a si próprio. Mas não conseguia, era impossível. Deixou-se, então, embalar pelo som das ondas e imaginou mil sinfonias atlântidas que o seduziam, cada vez mais, para a profundidade de um sono condenado ao fracasso. Entre vigílias e ondas profundas, sentia, com o intervalo de alguns segundos, a brisa a bater-lhe na cara. Sabia bem. Por isso, detestou ser acordado por um daqueles papéis que viajam pelo ar à boleia do vento e que lhe aterrou bem no meio dos olhos, começando a fazer-lhe cócegas no entroncamento entre as sobracelhas e o nariz. Levantou lentamente o braço e retirou o papel. Teria ido directamente para o caixote azul, se algumas palavras não lhe tivessem chamado a atenção. ‘REVOLUCIONÁRIOS PRECISAM-SE. ENTRE A VENEZUELA E A COLÔMBIA. NÃO É NECESSÁRIA EXPERIÊNCIA. LIGUE 808666999’. Naquele momento, tudo parou na cabeça de Filipe. Uma revolução vinha mesmo a calhar. De preferência uma por dia. Olhou o telemóvel e não hesitou. Comprou on-line um bilhete só de ida para aquele país entre a Venezuela e a Colômbia. Com escala em Frankfurt. Voltou-lhe a alegria e energia perdidas nos últimos dois anos. Aterrou, deixou as malas no hotel e correu para a entrevista. Fizeram-lhe perguntas atrás de perguntas, descreveram-lhe novas ideologias, mostraram-lhe novas visões do mundo, arredores e outros territórios adjacentes. Filipe acenou a cabeça em concordância. Vestiu novas roupas e ganhou novos amigos. Muitos mesmo, sem saber o nome de todos eles. Tinha o resto do dia de folga. A revolução começava pela manhã. Sentou-se na chaise longue de plástico da esplanada e pediu um café, apesar do calor abrasador e tropical. A cafeína actuou durante alguns segundos, mas Filipe adormeceu fatigado pelo síndrome transatlântico. Sonhou com revoluções e soldadinhos de chumbo. A brisa do final da tarde começava a bater-lhe na face. Sabia-lhe bem. Um papel que voava à boleia dessa brisa bateu-lhe na cara. Filipe acordou. Pegou no telefone e perguntou-lhe: ‘Queres começar uma revolução comigo?’. E viveram felizes para sempre. Uns dias mais felizes que outros.

Em paralelo

As paralelas juntavam-se no final. O número, ímpar. Três. Olhavam em frente sem definir um foco. Por baixo deles, brilho. Um brilho dissimulado que se reflectia nos seus pés. Os deuses são assim. Gostam que todo o brilhos dos homens nunca ultrapasse os seus pés. Perfeitos, paralelos, incrivelmente paralelos, tocando-se no fim. Talvez quando se tocam deixem de ser deuses. E consigam espreitar pela pequenas escotilhas da alma as verdadeiras realidades. Nunca consegui perceber se são os homens que querem ser deuses, ou se serão os deuses que quererão, em alguns momentos, ser apenas homens. Quem quererá viver para sempre? Não sei. E o contrário também não. Talvez apenas ache que todos temos um tempo para provar que merecemos passar por cá. A caminho de onde, também não sei, nem sei se isso me interessa muito. No fundo, não sou nenhum deus. E mesmo que fosse odiava saber tudo. Os deuses sabem sempre tudo. É que saber tudo é o tal meio-caminho andado para não se saber mais nada. E homem que é homem quer saber sempre mais um bocadinho. Afinal, o saber, ou lá como lhe chamam os homens, não ocupa nenhum lugar. Já para os deuses o conhecimento simplesmente existe neles. É natural saber-se tudo. Se calhar, o melhor é que deuses e homens continuem a ser paralelos, mas que nunca se juntem no final. Não haveria paciência para deuses-homens e, muito menos, para homens com a mania que são deuses. Paralelos ou não, tenho conhecido alguns destes. Homens e mulheres que são deuses. Quer dizer, olhavam-se no espelho e reflectiam-se como tal. Os seus olhos apenas viam as suas vaidades e poder aparente, julgando-se no direito fazer dos homens seus brinquedos. E assim foi durante algum tempo. Homens nas mãos dos deuses. Deuses a brincarem com os homens. Até que um dia, a vida ou ou destino como os homens lhe chamava quando não sabiam o que dizer, se encarregou de corrigir a brincadeira dos homens-deuses. Foi quando começaram gritar ‘Ai meus deuses’, enquanto tentavam libertar-se dos fios de marioneta com que os deuses, os verdadeiros, os manipulavam como brinquedos. Talvez nunca venham a perceber o que realmente lhes aconteceu. Talvez isso, na verdade, nem lhes interesse. Quanto aos homens, os reais, esses puderam seguir o seu caminho, juntando-se no final, como as paralelas. E finalmente puderam ser eles a olhar pelas escotilhas das suas almas e ver o que se passava no andar de cima. Ou de baixo.