Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Sê-lo
Podia voar. Sim, podia voar. Mas não é isso que a marca. Desliza, por vezes envergonhada, entre palavras e cenários, à espera de criar o seu. Talvez consiga encontrar o início da trama, talvez faça um esboço e depois arrisque o traço definitivo na tela. Falta definir as personagens. Não a sua, porque a essa apenas lhe falta uma única coisa: coragem. E a coragem não se compra, não se importa, não se pede nem se recebe pelo correio. Os selos são muito caros.
domingo, 7 de agosto de 2011
Tic-tac
Às cinco para as seis
um coração bate atrasado,
descontrolado, bebendo shots de xanax,
segue batidas que enrolam
o tempo para trás.
Pobres daqueles
que acreditam nas horas certas,
abertas somente ao metrónomo fechado do tempo,
que sonham ampulhetas quebradas
pelo tédio dos dias.
Às cinco para as seis
um coração batia atrasado,
descontrolado, num tic-tac com defeito,
que só abranda, partido
pela traição de um beijo de puta.
um coração bate atrasado,
descontrolado, bebendo shots de xanax,
segue batidas que enrolam
o tempo para trás.
Pobres daqueles
que acreditam nas horas certas,
abertas somente ao metrónomo fechado do tempo,
que sonham ampulhetas quebradas
pelo tédio dos dias.
Às cinco para as seis
um coração batia atrasado,
descontrolado, num tic-tac com defeito,
que só abranda, partido
pela traição de um beijo de puta.
domingo, 31 de julho de 2011
Re-Evoluções
Filipe estava deitado ao sol a pensar na vida. Mesmo de olhos fechados estava inquieto, perdido. E quanto mais pensava, mais inquieto ficava. ‘Pára de pensar’, dizia a si próprio. Mas não conseguia, era impossível. Deixou-se, então, embalar pelo som das ondas e imaginou mil sinfonias atlântidas que o seduziam, cada vez mais, para a profundidade de um sono condenado ao fracasso. Entre vigílias e ondas profundas, sentia, com o intervalo de alguns segundos, a brisa a bater-lhe na cara. Sabia bem. Por isso, detestou ser acordado por um daqueles papéis que viajam pelo ar à boleia do vento e que lhe aterrou bem no meio dos olhos, começando a fazer-lhe cócegas no entroncamento entre as sobracelhas e o nariz. Levantou lentamente o braço e retirou o papel. Teria ido directamente para o caixote azul, se algumas palavras não lhe tivessem chamado a atenção. ‘REVOLUCIONÁRIOS PRECISAM-SE. ENTRE A VENEZUELA E A COLÔMBIA. NÃO É NECESSÁRIA EXPERIÊNCIA. LIGUE 808666999’. Naquele momento, tudo parou na cabeça de Filipe. Uma revolução vinha mesmo a calhar. De preferência uma por dia. Olhou o telemóvel e não hesitou. Comprou on-line um bilhete só de ida para aquele país entre a Venezuela e a Colômbia. Com escala em Frankfurt. Voltou-lhe a alegria e energia perdidas nos últimos dois anos. Aterrou, deixou as malas no hotel e correu para a entrevista. Fizeram-lhe perguntas atrás de perguntas, descreveram-lhe novas ideologias, mostraram-lhe novas visões do mundo, arredores e outros territórios adjacentes. Filipe acenou a cabeça em concordância. Vestiu novas roupas e ganhou novos amigos. Muitos mesmo, sem saber o nome de todos eles. Tinha o resto do dia de folga. A revolução começava pela manhã. Sentou-se na chaise longue de plástico da esplanada e pediu um café, apesar do calor abrasador e tropical. A cafeína actuou durante alguns segundos, mas Filipe adormeceu fatigado pelo síndrome transatlântico. Sonhou com revoluções e soldadinhos de chumbo. A brisa do final da tarde começava a bater-lhe na face. Sabia-lhe bem. Um papel que voava à boleia dessa brisa bateu-lhe na cara. Filipe acordou. Pegou no telefone e perguntou-lhe: ‘Queres começar uma revolução comigo?’. E viveram felizes para sempre. Uns dias mais felizes que outros.
Em paralelo
As paralelas juntavam-se no final. O número, ímpar. Três. Olhavam em frente sem definir um foco. Por baixo deles, brilho. Um brilho dissimulado que se reflectia nos seus pés. Os deuses são assim. Gostam que todo o brilhos dos homens nunca ultrapasse os seus pés. Perfeitos, paralelos, incrivelmente paralelos, tocando-se no fim. Talvez quando se tocam deixem de ser deuses. E consigam espreitar pela pequenas escotilhas da alma as verdadeiras realidades. Nunca consegui perceber se são os homens que querem ser deuses, ou se serão os deuses que quererão, em alguns momentos, ser apenas homens. Quem quererá viver para sempre? Não sei. E o contrário também não. Talvez apenas ache que todos temos um tempo para provar que merecemos passar por cá. A caminho de onde, também não sei, nem sei se isso me interessa muito. No fundo, não sou nenhum deus. E mesmo que fosse odiava saber tudo. Os deuses sabem sempre tudo. É que saber tudo é o tal meio-caminho andado para não se saber mais nada. E homem que é homem quer saber sempre mais um bocadinho. Afinal, o saber, ou lá como lhe chamam os homens, não ocupa nenhum lugar. Já para os deuses o conhecimento simplesmente existe neles. É natural saber-se tudo. Se calhar, o melhor é que deuses e homens continuem a ser paralelos, mas que nunca se juntem no final. Não haveria paciência para deuses-homens e, muito menos, para homens com a mania que são deuses. Paralelos ou não, tenho conhecido alguns destes. Homens e mulheres que são deuses. Quer dizer, olhavam-se no espelho e reflectiam-se como tal. Os seus olhos apenas viam as suas vaidades e poder aparente, julgando-se no direito fazer dos homens seus brinquedos. E assim foi durante algum tempo. Homens nas mãos dos deuses. Deuses a brincarem com os homens. Até que um dia, a vida ou ou destino como os homens lhe chamava quando não sabiam o que dizer, se encarregou de corrigir a brincadeira dos homens-deuses. Foi quando começaram gritar ‘Ai meus deuses’, enquanto tentavam libertar-se dos fios de marioneta com que os deuses, os verdadeiros, os manipulavam como brinquedos. Talvez nunca venham a perceber o que realmente lhes aconteceu. Talvez isso, na verdade, nem lhes interesse. Quanto aos homens, os reais, esses puderam seguir o seu caminho, juntando-se no final, como as paralelas. E finalmente puderam ser eles a olhar pelas escotilhas das suas almas e ver o que se passava no andar de cima. Ou de baixo.
Negrumes
Fecho os olhos
Deixo que a respiração da angústia
Faça parte do cenário
Um homem de negro levanta o pano
Porque a peça vai começar
Ao contrário de ontem
Há mais negro para colorir
De todos os tons de branco
Um homem de negro levanta o machado
Porque é preciso matar a noite
Deixo que a respiração da angústia
Faça parte do cenário
Um homem de negro levanta o pano
Porque a peça vai começar
Ao contrário de ontem
Há mais negro para colorir
De todos os tons de branco
Um homem de negro levanta o machado
Porque é preciso matar a noite
Histórias do Norte – Cap: 7 - À porta
Desde sempre que as portas me fascinam. Há sempre algo de intrigante nelas. Umas, fortes e robustas, obrigam-nos a esforços para se abrirem. Outras, pura e simplesmente, abrem-se para passar. Outras ainda precisam sempre de um jeitinho familiar. São sempre um marco para nos deslocarmos para outro lado. Ora porque estão abertas e conseguimos, sem dificuldade, ir para onde queremos ou conseguimos espreitar de longe e vislumbrar, nem que seja um pouco, do que vai para lá da porta. Ou então, porque estão fechadas e espreitamos pelo buraco da fechadura, tentando perceber o que se passa. Ou porque, estando fechadas, temos de bater na esperança de que alguém nos ouça. Ou ainda, em alguns lugares nos obriga a saber uma palavra-passe, a conhecermos o porteiro ou a estarmos numa guest-list, coisa muito comum às portas dos dias que correm. Perante uma porta fico sempre dividido ‘Entro, não entro?’. Quando uma porta se abre, abre-se também um novo mundo. E se ela for das boas, a porta claro, muitos outros se podem abrir também. Mas também quando uma porta se fecha, outras se abrirão. É a lei das portas. Eu pessoalmente gosto de portas. Fechadas ou abertas. Fechadas porque se podem abrir. Abertas porque se podem fechar. Mas há um tipo de portas de que não gosto muito – as entreabertas. Não são de confiança.
domingo, 24 de julho de 2011
Confusear
Ele falousou mais uma vez entre estranhos. Sentia-se à vontade. Quanto mais pensava para dentro, mais falousava para os demais. E mesmo confuseando o cérebro, descobriu que na vida é preciso minuciar os dias, perguntar as horas, dissecar os segundos, enfuriar as têmporas. Já recontente com essa descoberta, despediu-se dos outros e canetou noite dentro à procura de um redesamar profundo.
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