quinta-feira, 21 de julho de 2011

Feitiços-de-café

Miguel sempre foi assim, desde a escola. Perito em post-its. Perito em achar-se o máximo. Sim, em colocar post-its nas costas das colegas da turma e receber os louros por isso. O seu grande troféu foi ganho quando conseguiu deixar um nas costas da professora de inglês ‘Miss you my dear’. Na semana seguinte recebeu a resposta ‘Miguel – zero’, bem assim no meio da pauta. E para todos admirarem. Este pequeno desaire nunca afectou a imagem que tinha de si próprio. Habitava um ego difícil de abalar. Um dia, porém, os seus olhos cruzaram-se casualmente com Rita, que tomava um café numa esplanada escondida ali para a Estrela. Nunca conseguiu encontrar as palavras que explicassem porque ela o fazia sentir criança, e ao mesmo tempo, o impedia de avançar. Nem todos os post-its do mundo o faziam decidir. Seriam os olhos que o evitavam sempre à mesma hora, naquele sítio que se tornou, do costume? Talvez o café tivesse feitiços. E com feitiços não se brinca. Talvez Rita não fosse para o seu post-it. Mas numa daquela manhãs, naquela manhã com M grande, encheu-se de coragem. Hoje o café seria por sua conta. Roubou a bandeja emprestada e, sem que ela perecebesse a sua presença, Miguel serviu-lhe o café e sentou-se. ‘É por minha conta’. Ela olhou-o, primeiro com despreza, depois desfez a máscara. ‘Dez pontos pela ousadia. Estava a ver que o mundo acabava e nunca mais te decidias. Todos estes dias a desinteressar-me e tu, nada? Finalmente ganhaste coragem.’ ‘O teu café tem feitiços.’ ‘Não sejas parvo e vem comigo’. Levantaram-se e Rita beijou-se levemente nos lábios e mais intensamente depois. Quando Miguel tentou prolongar este momento, Rita colocou-lhe o dedo nos lábios num gesto sensual de silêncio. Miguel sorriu, caindo logo de seguida. O coração apenas conseguiu recordar aquele momento, por muito que tentasse recordar-se do resto. Rita, olhando-o pela última vez, retirou calmamente um post-it da sua mala. Colou-o o peito de Miguel ‘O café tem feitiços’. Virou costas, apertando no bolso do casaco aquele pequeno frasco, num gesto de quem não conseguia ter sequer um esboço de remorsos. Seguiu o seu caminho. O mesmo que recordava aquele momento, há vinte anos atrás em que retirou um post-it do seu largo casaco de malha castanho-escuro ‘Feia’. Apenas aquilo. Doeu. Mas Miguel não tinha dado pela diferença.

Monstro-belo

Miguel tinha dupla personalidade, achava ele. Nunca sabia se ia acordar ‘belo ou monstro’. Hoje acordou belo. Sentou-se na cama e contemplou-se ao espelho do fundo do quarto. Estava irreconhecivelmente belo. Sentia-se irreconhecivelmente belo. Era a primeira vez, já fazia algum tempo que isso acontecia. O segredo, percebeu-o naquele instante, era afinal simples. ‘Parar no 3º shot’. Saiu e foi tomar o pequeno-almoço. Cereais com leite e uma frutinha. Fazem melhor.

fragmentos

Há mais fragmentos hoje

sem saber se são da memória,
ou de todas as memórias
que ainda se esforça por esquecer
Há mais fragmentos que ontem

um coração dorido ainda

e uma palavra cola-tudo

que não cola realmente nada,

que não se colasse

com um pouco de amor

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Histórias do Norte – Cap: 9 - Regressos

Os regressos são assim. Diferentes. O dever cumprido, ou não. Os novos mundos, ou não. Experiências. Nunca percebi bem se gosto, ou não, dos regressos. Se calhar, porque me obrigam a pensar sempre demais. Mas que quando regresso venho sempre diferente do que fui, isso é mesmo verdade. É uma coisa Vogleriana. E desta vez, essa regra do regresso segue a regra e não a excepção. Estou diferente. Apaixonei-me, estou mais rico e não é porque importei meia-dúzia de coroas. Se fosse um herói diria que o regresso a casa se fazia com vitórias e histórias para contar. Como não sou trago só as histórias. As minhas. Bem-vindo de volta.

Histórias do Norte – Cap: 8 - Aquilo tudo

Vasco tentou lidar com aquilo tudo, mas não conseguiu. Por isso, bateu com a porta e saiu. Num filme teria dito ‘Vou comprar cigarros’. Como o filme era apenas o dele disse ‘Volto já’. O que Vasco não disse é que o seu ‘já’ era parecido com o de algumas lojas que fecham à hora de almoço. E assim foi.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Histórias do Norte – Cap: 6 - Amo-te, assim mesmo sem te conhecer bem

Amo-te desde o primeiro momento em que te conheci. Desde o primeiro olhar. Desde que percebi que te tinhas atravessado no meu caminho. Seria fácil dizer que as tuas formas discretas, mas cheias de sentido e de sentidos, me apanharam de surpresa. Seria ainda mais fácil dizer que cada detalhe teu me faz redescobrir-me ainda mais. Que cada coisa que me dizes, mesmo que não entenda nada, se descodifica naturalmente no meu léxico de todos os dias. Que ao pé de ti, ou mesmo em ti, me sinto em casa. Às vezes olho-te com aquela distância de quem apenas se conheceu ontem e pergunto-te ‘porquê?’. E a resposta é sempre a mesma ‘porque tinha de ser’. Porque mesmo que sejamos estranhos num outro país, a vida, aquela linha de que todos falam, acaba sempre por nos juntar. ‘Tinha de ser’. Aquilo não me saía da cabeça. Ao pé de ti, e em ti, estou feliz. Como um miúdo numa loja de Legos. Sinto-me mais perto de mim. Sei que talvez não seja fácil, mas ainda vou encontrar um adjectivo, por pequeno que seja, que consiga definir-te na perfeição. Não com exactidão, porque és muito mais que isso. Para mim foste, e és, uma das coisas mais fantásticas que a vida conseguiu embrulhar de presente. Sabes que com a outra mais importante ninguém consegue competir, não é? Cada vez que te olho ou percorro o teu corpo, não me interessa que sejas muito maior que eu. Que sejas bastante mais velha e vivida. Apenas me interessa, de uma forma cegamente egocêntrica, o que me fazes sentir. E mesmo que a nossa relação não seja mais que um flirt fugaz de alguns dias, sabes que te amarei para sempre. E isso não se diz a todas. Eu não te escolhi. Foste tu que o fizeste. Não consigo perceber nem quando, nem porque o fizeste. Apareceste-me do nada, um dia sem avisar. Eu sempre soube que um dia havíamos de estar juntos. E agora estamos. Ambos sabemos que para já, não será para sempre. E que relações à distância nunca dão os melhores resultados, para além de e-mail bacocos e colecções de selos. Por isso, vou aproveitar-te até ao último momento. Ouvir o teu respirar quando acordo. O teu silêncio quando adormeço. A tua pose do meio-dia, ou as notas de música que ofereces quando te percorro de um lado ao outro. Sei agora que realmente me conquistaste como nenhuma outra. Tenho apenas aquela sensação de pena. Sim, de pena, de não ter tido tempo para ser eu a conquistar-te também. Bem, vou andando. Amo-te Copenhaga.

Histórias do Norte – Cap: 5 - Cor-de-talvez

O dia tinha começado escuro. Todos os dias desde há muitos ponteiros, começavam entre o breu e o cinza escuro, na vida de Simone. Mas ela não se importava. A vida era mesmo assim. Um dia qualquer haveria de acordar e o ser já teria mudado de cor. Até lá tinha, tinha de esperar. ‘Espera sentada’, diziam-lhe os amigos. E ela assim ficava, bem sentada e confortável à espera que a cor mudasse. Umas vezes, olhava pela janela e imaginava-se de pincel e tinta na mão, a pintar o céu. Pelo menos aquele céu que conseguia ver. ‘E não seria de azul, porque assim o céu fica igual a todos os outros céus. Talvez um laranja ou um verde. Sempre é diferente e ninguém tem um céu assim.’ Mas sempre que pegava num pincel, a janela fechava-se e transformava-se num muro, tão alto e tão sólido que a impedia de sair. Andava cansada de tentar saltar muros. E este era, ou pelo menos dava a entender que seria intransponível. Se calhar não gostava de verde ou de laranja. No fundo, Simone sabia que a cor não era o mais importante. E isso dava-lhe o conforto necessário para não tentar mais, para não decidir. Talvez um dia, talvez num dia bem cinzento, quase breu, alguma Skands lhe apareça à frente, bem loura e bem raínha e apenas lhe diga ‘Vamos?’. Talvez aí, talvez nesse minuto, nesse segundo, consiga de vez pegar nos seus pincéis, nos seus lápis de cor, nos seus guaches e vá pintar a tela. Aquela a que, mesmo nos dias cinzentos, quase breu, chama ‘sua vida.’