terça-feira, 12 de julho de 2011

Histórias do Norte – Cap: 4 - A mesa do lado

Filipe não percebia palavra. Mas soava-lhe a música clássica. Aristocrática, nobre, melodiosa, harmoniosa. Aquela harmonia quase sempre impossível de atingir noutras batidas. Apesar de nunca se ter dedicado a perceber e a ouvir sentindo, a música clássica, estava encantado com aquele andamento. Assim para o alemão, mas com canela. Parece que tinham pegado na pauta e lhe haviam limado todos os ‘érres’ de que não precisava. Bendita grosa. Filipe deixou-se embalar pelo classicismo das palavras, pela leveza das notas, pelo imperativo dos pontos finais, pela emoção de algumas vírgulas, pelas entoações e expressões e respirou fundo, mesmo estando provado que isso não lhe fazia bem. Sem querer, voou por cima das nuvens e fechou os olhos. Assim, conseguia ver-se melhor.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Histórias do Norte – Cap:3 - Ao porto

Daqui tudo parte e tudo chega. Tudo parte cheio de esperança. Tudo chega, muitas vezes, sem ela. Eu vou ver se a encontro. A partir daqui. Do porto.

Histórias do Norte – Cap:2 - She (não, não é a do Elvis Costello)

Ela olhava para cima em busca de um ponto que lhe desse a segurança que precisava para aquele passo. Os olhos grandes, de um castanho escuro mate, davam-lhe um encanto especial. Mas ao mesmo tempo, mostravam um pouco da ansiedade que envolvia levantar os pés da terra. Muito quieta, acabava por resignar-se ao seu destino. Apenas os olhos a denunciavam. Os seus longos cabelos, sem uma única onda, desciam-lhe calmamente pelos ombros, desenhando uma cascata quase perfeita. O medo que se estampava no seu rosto era arredondado pela inocência que parecia ainda ter. Não tive coragem de lhe perguntar o nome logo quando reparei que a sua face me fazia olhar uma e outra vez, até perder a conta. Reparei nela ainda em terra, mas a caminho das núvens. Mas foi em Santarém, bem por cima do vale de Almeida Garret, que marcou a atmosfera. Uma pose mais decidida. Um deslumbramento mais terreno. Ainda faltam 2.500 quilómetros para chegar. Tenho a certeza que irá ainda revelar-se. O seu ar tem algo de islâmico. E isso atrai-me. Esse desconhecido que faz pensar tudo duas vezes antes de dar um passo, por mais pequeno que seja. Um desconhecido que talvez se esconda por trás dos seus longos cabelos ou mesmo dos seus olhos castanhos escuro mate. Um desconhecido que sei que não vou descobrir, mas posso imaginar. Pedaço a pedaço. Lá fora, em Santarém, estão 13º negativos, mas isso não me faz arrefecer o coração. Percebi pelo título do livro que lia, vagarosa e com uma vontade intermitente, que falava português. A minha língua, que afinal era nossa. Pelo menos talvez nos consigamos entender nas palavras. Ela deve ser muito nova. Já hipnotizado pelo tapete rolante das malas, ganhei coragem e perguntei-lhe. ‘Sylvia. Eu sou a Sylvia!’ Antes disso, atrevi-me a adivinhar todos os nomes, menos esse. E muito menos com um ‘Y’ para me impedir de acertar. Se não me tivesse dito que estudava posologias e receitas, esse seria, por certo, a última coisa em que pensaria que investia a saúde dos seus neurónios. Talvez algo mais livre, mais libertador, mais aberto. Mas isso não é o mais importante. Porque hoje ela traz na bagagem, no meio de sonhos e incertezas, 36 dias para ser o que quiser. Para travestir esta cidade com o seu sotaque encantador. Longe do sol e do sangue-quente. Longe de uma alegria que nunca se põe no final de cada dia. Longe da espontaneidade e leveza com que se atravessam os dias no outro lado do Atlântico. Mas, quem sabe se não é ela quem os vai trazer para cá?

Histórias do Norte – Cap:1 - Ligações

O restaurante era o italiano de esquina. Ao fundo, um luminoso Rolex marca o tempo da zona. Toalhas de pano muito brancas, copos de pé alto. Dignos de receber visitas ilustres. Como é o caso. Ela acabava de chegar à cidade e impunha-se pela sua presença, fosse onde fosse. Bonita, sem uma única marca da idade a trespassar-lhe as frontes, era impossível passar sem que todos reparassem nela. Pelo menos é o dizem. Ela preferia exactamente o oposto ‘trazia-me menos complicações’, costumava dizer. E, no fundo, era verdade. Ela parecia um íman a atrair problemas. Um íman com uma elegância feminina que faz suspirar quem com ela se cruza. Eram uns atrás dos outros. Os problemas, claro. E os homens, de certa forma também. Ainda este último lhe havia tentado regar a Louis Vitton com um frasco de gasóleo disfarçado de Channel 5. Sim, porque a gasolina está pornograficamente cara. Era dona de um magnetismo para estas pelejas que não se conheciam grandes adversários à altura. Sentou-se, olhando em volta, na esperança de ter conseguido a missão de passar despercebida. Impossível. Mais de metade dos olhares, por entre copos e sabores, fixaram-se nela. Naquele mesmo segundo, cravou os seu solhos no chão, na tentativa diga-se com justiça, bem conseguida, de fazer parar aquelas ligações. Conseguiu-o pelo menos durante alguns segundos. Respirou bem fundo antes de voltar a uma pose mais social. No seu movimento elegante de olhos, ao voltar o seu olhar de novo para cima, depois daqueles breves momentos de tréguas, os seus cruzaram-se com dois enormes círculos castanhos escuros. Igualmente magnéticos. Igualmente a chamarem problemas. Igualmente impossíveis de não olhar. Era ela agora, quem não conseguia desfazer aquele elo. Embaraçada, um pouco, pela situação, mas sem nunca desviar o olhar, estudou apressadamente o menu e pediu: ‘mesa para dois!’. E beberam vinho italiano que acompanharam com pasta e umas ingénuas folhas de rúcula. Só a Louis Vitton ficou à margem, bem escondida debaixa da mesa, ligada à terra. Mesmo a gasolina ao preço que está, nunca se sabe.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Fogo para que te quero.

Quero pegar fogo ao passado
contigo lá dentro
Quero olhar para trás
e não te ver
Quero voltar a nascer
sem que cruzes o meu caminho
Quero fazer de ti
uma imagem que se esfumaça e se apaga
Quero estalar os dedos 

e fazer-te desaparecer de sempre em sempre
Quero sentar-me naquele lugar
e não me lembrar que alguma vez lá estiveste
Quer ver na tua fotografia
o meu novo ponto de partida
Quero esquecer o teu sorriso
e voltar a sorrir-me comigo
Quero olhar para trás
e ver mil nadas cheios de coisa nenhuma
Quero olhar-te
com o desprezo que nem mereces
Quero pegar fogo ao passado
contigo lá dentro
Apenas isso.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Caderno-semi-aberto

Nobody dies a virgin, life fucks us all. Estas palavras foram genialmente inventadas por Kurt. Cobain sabia do que falava. Miguel olhou-as de frente, manuscritas num caderno semi-aberto de um adolescente sentado na esplanada da Avenida, e foi incapaz de sorrir. A verdade quando surge tão crua e mesquinha, dói mais que centenas de agulhas a espetarem-se ao mesmo tempo nos olhos. A tristeza invadiu-lhe a face pela milésima vez naquele dia cheio de sol. Esse mesmo sol que já não era suficiente para lhe dar a luz que precisava, faz já umas semanas, que teimavam em ser cada vez mais largas. E o que Miguel mais desejava naquele momento era mesmo um caminho mais ou menos estreito, que lhe focasse toda a atenção. Aquelas palavras não lhe saíam da cabeça. Iam e vinham. Jogavam flippers nos seus neurónios. Mas pior que tudo, não saíam dali. Semanas, dias, horas, minutos, segundos a fio. Aquele caderno, naquela mesa, naquela esplanada, naquela Avenida, bem podia e devia ter outra frase escrita ‘Niguém morre virgem. A vida encarrega-se de nos foder. E se não é a vida, é alguém mesmo ao nosso lado.’ E Miguel sabia-o bem.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Entupidez

Hoje é dia de conclusões: o meu cérebro engorda. Seja lá em que hemisfério for. Engole tudo e mais alguma coisa e está mais gordo que nunca. E apesar de me estar sempre a dizer que é muito selectivo e só absorve sabedoria e conhecimento, nos últimos tempos só deixa entrar estupidez. E o problema da estupidez é aquele continuum infinito. Assim que começa nunca mais pára e, pior que tudo entope os canos cognitivos. Agora mesmo, que por acaso foi há uns dias, acabou de produzir mais um bocado. E dos grandes.