segunda-feira, 13 de junho de 2011

Caderno-semi-aberto

Nobody dies a virgin, life fucks us all. Estas palavras foram genialmente inventadas por Kurt. Cobain sabia do que falava. Miguel olhou-as de frente, manuscritas num caderno semi-aberto de um adolescente sentado na esplanada da Avenida, e foi incapaz de sorrir. A verdade quando surge tão crua e mesquinha, dói mais que centenas de agulhas a espetarem-se ao mesmo tempo nos olhos. A tristeza invadiu-lhe a face pela milésima vez naquele dia cheio de sol. Esse mesmo sol que já não era suficiente para lhe dar a luz que precisava, faz já umas semanas, que teimavam em ser cada vez mais largas. E o que Miguel mais desejava naquele momento era mesmo um caminho mais ou menos estreito, que lhe focasse toda a atenção. Aquelas palavras não lhe saíam da cabeça. Iam e vinham. Jogavam flippers nos seus neurónios. Mas pior que tudo, não saíam dali. Semanas, dias, horas, minutos, segundos a fio. Aquele caderno, naquela mesa, naquela esplanada, naquela Avenida, bem podia e devia ter outra frase escrita ‘Niguém morre virgem. A vida encarrega-se de nos foder. E se não é a vida, é alguém mesmo ao nosso lado.’ E Miguel sabia-o bem.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Entupidez

Hoje é dia de conclusões: o meu cérebro engorda. Seja lá em que hemisfério for. Engole tudo e mais alguma coisa e está mais gordo que nunca. E apesar de me estar sempre a dizer que é muito selectivo e só absorve sabedoria e conhecimento, nos últimos tempos só deixa entrar estupidez. E o problema da estupidez é aquele continuum infinito. Assim que começa nunca mais pára e, pior que tudo entope os canos cognitivos. Agora mesmo, que por acaso foi há uns dias, acabou de produzir mais um bocado. E dos grandes.

Vintage

Hoje gosto mais do que já foi. Acho que o meu cérebro ficou vintage. O que, às vezes, é uma chatice porque resolve agarrar-se às memórias e começar a reinterpretá-las. E uma memória é o que é. E se a ponho a concorrer com o ‘hoje’, começam, por comparações, a ficar com defeito. E eu odeio memórias com defeito. Mas, hoje em dia, só para me aborrecer ando cheio delas. E como se não bastasse estou com excesso de stocks. Talvez tenha de tirar as memórias do armazém e começar hoje a criar umas novas. Daquelas que só se irão tornar vintage daqui as uns dez ou quinze anos. Se eu me lembrar delas, claro.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

De-certeza-absoluta

Porque raio pregaram este semáforo bem no meio do meu caminho?, gritou para dentro com todo o fulgor que os seus pulmões lhe permitiam naquele momento. Verde, encarnado, verde, encarnado. Será que não podia passar à tangente pelo laranja? Será que o semáforo está mesmo no meu caminho ou será que sou eu que imagina por lá? Miguel pensava, cada vez com mais força de vontade, se não se teria enganado algumas ruas atrás e cortado à direita, quando o fadinho lhe dava toda a prioridade pela esquerda. Talvez fosse isso mesmo e este compasso de espera não passasse de um pedaço perdido da sua imaginação. ‘Fértil’, afirmou 'é o que todos dizem'. Apesar disso lhe vir à cabeça neste momento, Miguel não encontrava a resposta mesmo depois de ter revoltado memórias e pensamentos, não conseguindo voltá-los a pôr no mesmo sítio. ‘Depois arrumam-se.’ Dizem que tudo se arruma, de uma maneira ou de outra. Essa era a sua luzinha. A única coisa em que quase podia confiar. Mesmo que os seus dias de hoje se fizessem mais de dúvidas do que de qualquer outra matéria, Miguel tinha, porém uma única certeza que gritou para quem quis ouvir: ‘não admito competir com a banalidade. Não será justo para ela.’

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Toca-não-toca

Miguel sentou-se no chão e esperou. Pela primeira vez não tocou. Primeiro estranhou, depois entranhou mesmo. Os hábitos são perigosos, pensou. Ora nos descansam, ora nos enfurecem. Que merda esta dos sentimentos-duplos. Pela primeira vez não tocou. Miguel elouqueceu-se na espera. Perdeu-se no tempo. E nem sabia se queria voltar a encontrar-se. Pela primeira vez não tocou. Não denunciou aquele conforto que cheira a almofadas fofas de sofá. Que cheira ao entrar em casa. Pela primeira vez não tocou. Mas tocou-lhe fundo. Encontrou-se nele camadas desconhecidas de sentir. Descobriu-se dor e manchas de desprezo gravadas na alma. Pela primeira vez não tocou. E Miguel chorou. Para dentro. Pela vergonha. Pela solidão. Pelas perguntas que não têm resposta. Pelo que é ou parece ser. Pelo filme e pelo intervalo. Pela desconfiança da vida em redor. Pela teia que a aranha começou a tecer à volta das suas dúvidas. Pela primeira vez não tocou. E isso tocou-lhe bem fundo. Tão fundo que Miguel nem sabia se aquele fundo era dele. Pela primeira vez não tocou. Mas quem sabe se não tocará em breve. Nem que seja por breves momentos. Nem que seja por uma fracção tão pequena de segundo, mais longa que o abrir e fechar de olhos. Pela primeira vez não tocou. E há sempre uma primeira vez para tudo, pensou.

Burn-it-down!

Ainda quente dos fragmentos de vontade que se passeavam nos seus neurónios meio-desertos, Miguel teve a coragem de levar o seu i.pod ao ouvido. Sabia que a dor iria percorrer todos os seu pedaços. Mas a vida é assim: um enorme cheque em branco que alguém vai preenchendo como realmente lhe apetece.

We'll rise above this

We'll cry about this

As we live and learn

A broken promise

I was not honest

Now I watch as tables turn

And you're singing

I'll wait my turn

To tear inside you

Watch you burn

I'll wait my turn

I'll wait my turn

I'll cry about this

And hide my cuckold eyes

As you come off all concerned

And I'll find no solace

In your poor apology

In your regret that sounds absurd

Keep singing

I'll wait my turn

To tear inside you

Watch you burn

And I'll wait my turn

To terrorize you

Watch you burn

I'll wait my turn

I'll wait my turn
A Promise is a promise

A Promise is a promise

A Promise is a promise

A Promise is a promise

And I'll wait my turn

To tear inside yo
u
Watch you burn

I'll wait my turn

I'll wait my turn
A broken promise

You were not honest

I'll bide my time

I'll wait my turn

E assim ficou em loop, o resto da tarde. O semáforo, o mesmo de sempre, apenas se deixou ficar encarnado.

(nota: pela primeira vez na história deste blog existe uma transcrição de um texto, neste caso um poema - Broken Promise - de Brian Molko, Placebo. Thanks Brian)

domingo, 22 de maio de 2011

Fogo-d´água

Água, Miguel precisava desesperadamente de água. Todo ele se sentia seco, incluindo mesmo a parte de trás do coração. Tinha chorado tudo nos últimos dias. E, no final de contas, não era um camelo, no sentido literal, para conseguir armazenar água para vários dias. Mas, em todos os outros sentidos, era assim que se sentia. Ainda pensou que se adicionasse um ‘T’ à sua condição miserável, ainda podia e ia, com certeza, mudar o rumo da história. Assim, sempre seria uma história redonda como a távola e gloriosa como a vitória de amor verdadeiro. Mas, mesmo com o sinal verde a cair, não o conseguia. A história era aquela e mais nenhuma. Por mais que insistisse, nada. Era assim. Por isso, mesmo a medo, Miguel ganhou finalmente coragem e iniciou timidamente, mas num tom definitivo, a sua marcha, rumo ao outro lado da rua. Sim, eram tímidos e sentidamente tremidos. A puta daquela imagem não lhe saía da cabeça. ‘Miguel há só um, e esse sou eu.’ Miguel tinha-se tornado ao longo dos últimos tempos um ser desatento. Nunca havia percebido que um Miguel tem de estar sempre alerta e que ajudava ter feito o seviço militar nos Comandos. Como isso não aconteceu, desatentou-se. E era agora, passados alguns poucos anos, que factura vinha servida sob a forma do inesperado e do inacreditável. A puta daquela imagem continuava a não sair dali, parecia instalada, sem pedir permissão, bem nos lobos frontais da cabeça de Miguel. Se é que ele, neste momento ainda a conseguisse possuir. Fazer zapping cerebral parecia-lhe uma coisa acertada fazer naquele momento. Não estava a conseguir. Pensou ‘Vou apagar’. Mas,Miguel sabia que há coisas que não se apagam, têm mesmo de ser queimadas. O problema é que ele não fumava. Não havia lá em casa, nem um pequeno isqueiro ou caixa de fósforos. Não tinha, mas havia maneira de o arranjar. Porque no fundo no fundo, é possível que ainda se venha a queimar, nem que seja com um copo de água quente.