Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
sábado, 14 de maio de 2011
Destino-remarcado
Miguel pensou ‘O meu futuro é o presente. É o hoje, o aqui, o agora.’ O sinal vermelho caía. O presente também. O passado desmoronava-se a cada palavra. Até um simples castelo de cartas era mais sólido e forte. Miguel fechava os olhos. Recusava-se a ver o presente. O sinal verde abriu. O presente era envenenado. A vida passava a intermitente. Miguel recusava-se a abrir os olhos, alagados agora em lágrimas, que vinham da nascente das entranhas. As entranhas pouco podiam fazer, a não serem elas mesmas. O sinal ficou encarnado. Miguel por ali se ficou mais uns momentos, antes de seguir em frente. O choque era inevitável. Miguel sabia-o bem, desde o primeiro momento. Evitava-o a todo o custo. Construiu argumentos e descobriu evidências e sinais. Mas o destino estava mesmo traçado. E com o destino não se brinca, pensou Miguel. O destino sabe sempre muito mais que eu.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Meia-volta
Miguel olhou, de novo, em frente. Não conseguia ver o fim da rua, que estava invadida de ruídos e intersecções. Manteve-se imóvel mais uns momentos. Todos os ruídos e intersecções passam, pensou. O que Miguel não sabia era quando e que consequências iriam trazer à sua alma. Estava descontrolado, desgovernado, envergonhado e, acima de tudo, inseguro. Decidiu avançar. Pior não poderia ficar. Os primeiros passos foram dolorosos, pesados, repletos de apalpadelas e incertezas. O problema é que os segundos foram exactamente iguais aos primeiros. Arredou pé e voltou ao semáforo. Provavelmente vai ter de esperar que o sinal vermelho volte a cair. E aí, avançar com toda a força. Sem medo do que aí vem.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Vai-não-vai.
Miguel olhou em frente e ficou imóvel. Petrificado. Inerte. Sem reação. Não olhou para um lado, nem para o outro. Não esperou o sinal verde, mas também não atravessou. Ainda lhe faltava aquele nome feminino sinónimo de segurança íntima ou convicção do próprio valor ou segurança de alguém que crê em alguém ou alguma coisa. Noutras alturas é sinónimo de certeza, crédito, ânimo. Miguel ainda não a tinha. Deixou cair o sinal encarnado e deixou-se ficar. Imóvel. Petrificado. Inerte.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Cola-cola
Miguel olhava para o seu coração outra vez. Era a vigésima quinta em poucos minutos. Já se sentia incapaz de ver em quantos pedaços estava partido. Talvez antes partido que em teia-de-aranha. Assim não parece que está, mas não está. Desejou que fosse um puzzle onde pudesse juntar todas as peças, mesmo que sem números por trás, e fazê-lo funcionar de novo. Sempre odiou ter de apanhar cacos e colá-los uns aos outros. Dá sempre um Frankenstein. E Miguel odiava o seu coração-Frankenstein. Desta vez, porém não parecia haver solução à vista. A única dúvida é se deverá ser com Supercola3 ou HUH para papel.
domingo, 20 de março de 2011
domingo, 6 de março de 2011
Português Suave
O Português está suave. Não pensa que o dia está preso ao anterior. Não vê as costuras que vivem invisíveis entre as vinte e três e cinquenta e nove e a meia-noite um. Atravessa-os e pronto. Está suave como lagoas de meio-dia viradas a sul. Suave como ditadores de algodão em parques de diversão. Esta preso. Preso ao ontem e ao comodismo genético que lhe está tatuado desde o primeiro choro ao ar livre. Está suave com os amigos, com os inimigos e personagens adjacentes. Está suave porque não aprendeu nada com a História.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Não
Não, hoje é dia não. Não que me queixe do dia. Não que o odeie. Não que ele me odeie a mim. Não que o tempo esteja mau. Não que tudo sejam rosas. Não que tenha apostado tudo no preto e tenha saído o vermelho. Não que me odeie a mim próprio. Não que odeie os outros. Não que os outros me odeiem. Não que haja piores notícias que ontem. Não que haja melhores. Não que me esteja a apetecer partir ao meio palavras que recebi. Não que me apeteça o contrário. Não que o livro entreaberto me desperte para algo novo. Não que o novo me esteja a invadir como antes de ontem à tarde. Não que o resto que falta do domingo seja menos igual aos outros restos de domingo. Não que seja diferente. Não que tenha descoberto algo que já sabia há ‘nãos’ dias. Não que isso me tenha surpreendido. Não que tenha ficado ofendido com isso. Não que a sabedoria me tenha batido à porta e pedido para ficar. Não que se tenha ido embora sem bater. Não que o branco me traga mais experiência. Não que o tenha tentado pintar de outra cor. Não, não. Não que não tenha vontade de olhar, fechar os olhos, voltar a olhar e soltar um grito que se prende à garganta há meses a fio. Não que ele não venha mesmo lá do fundo. Não que não lhe vá dar tempo de antena algum destes dias. E posso crer, que não digo que não.
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