domingo, 20 de março de 2011

Medo

O medo é uma marca registada.

domingo, 6 de março de 2011

Português Suave

O Português está suave. Não pensa que o dia está preso ao anterior. Não vê as costuras que vivem invisíveis entre as vinte e três e cinquenta e nove e a meia-noite um. Atravessa-os e pronto. Está suave como lagoas de meio-dia viradas a sul. Suave como ditadores de algodão em parques de diversão. Esta preso. Preso ao ontem e ao comodismo genético que lhe está tatuado desde o primeiro choro ao ar livre. Está suave com os amigos, com os inimigos e personagens adjacentes. Está suave porque não aprendeu nada com a História.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Não

Não, hoje é dia não. Não que me queixe do dia. Não que o odeie. Não que ele me odeie a mim. Não que o tempo esteja mau. Não que tudo sejam rosas. Não que tenha apostado tudo no preto e tenha saído o vermelho. Não que me odeie a mim próprio. Não que odeie os outros. Não que os outros me odeiem. Não que haja piores notícias que ontem. Não que haja melhores. Não que me esteja a apetecer partir ao meio palavras que recebi. Não que me apeteça o contrário. Não que o livro entreaberto me desperte para algo novo. Não que o novo me esteja a invadir como antes de ontem à tarde. Não que o resto que falta do domingo seja menos igual aos outros restos de domingo. Não que seja diferente. Não que tenha descoberto algo que já sabia há ‘nãos’ dias. Não que isso me tenha surpreendido. Não que tenha ficado ofendido com isso. Não que a sabedoria me tenha batido à porta e pedido para ficar. Não que se tenha ido embora sem bater. Não que o branco me traga mais experiência. Não que o tenha tentado pintar de outra cor. Não, não. Não que não tenha vontade de olhar, fechar os olhos, voltar a olhar e soltar um grito que se prende à garganta há meses a fio. Não que ele não venha mesmo lá do fundo. Não que não lhe vá dar tempo de antena algum destes dias. E posso crer, que não digo que não.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Mesas

Alberto ouvia-os falar. Talvez não tomasse atenção ao verdadeiro sentido das suas palavras. Talvez isso nem fosse o mais importante. Mas, sem conseguir explicar porquê, sentia-se bem a ouvi-los. Eram dois. Na realidade eram três, mas um deles quase nunca tinha a palavra, acenando de quando em vez com a cabeça, para dizer que sim, que concordava. Por isso, para Alberto, não contava. A cada palavra que saia das suas bocas, ele ia construindo a sua própria história. A pouco e pouco, a história crescia. Ganhava forma. Ganhava formas. Surgiam novas personagens. Novos enredos. Novos enganos. Novas verdades. Novas mentiras. Novas cores. Novos sons. Novas vidas. E quando era a sua vez de dizer ‘Era uma vez’, as duas pessoas e a outra que quase nunca tinha a palavra, acenando de quando em vez com a cabeça, para dizer que sim, que concordava, pediram um café ‘curto, se faz favor’ e sairam. Alberto ainda tentou continuar a escrever a sua própria história, mas já não conseguiu. Mudou de mesa.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Atordoada não é morta

Esta manhã quando abri o armário ali estava ela. Morta para sair dali. E eu mortinho por ela lá continuar. Empurrámos a porta um contra o outro. Ali estivemos durante uns cinco minutos. E cinco minutos de manhã é uma eternidade. Quase que me atrasava para apanhar o metro. E cinco minutos de metro são para aí duas ou três estações. Por fim, e depois de alguns empurrões mais drásticos lá a voltei a colocar dentro do armário. Mas desta vez, ao contrário de há dois anos atrás, ela estava a querer voltar à vida em grande força. Hoje ainda conseguiu pôr cá fora quatro memórias e um momento único. E eu que pensava que já tinha eliminado tudo o que era preciso para ela se manter morta. Mesmo morta. Mas desta vez, quando a empurrei foi de vez. Pela fechadura, enchi-a de momentos cheios de presente. Ela não resistiu. Era mais forte que ela. E o presente é sempre mais forte que o passado.

sábado, 13 de novembro de 2010

Astrologices

Seja como for, espero que os astros se mantenham sempre redondos. Não sei explicar, mas gosto deles assim,...mais orgânicos. Para começar, detesto quadrados. Viram sempre os lados de costas uns para os outros e dificilmente saem do sítio. Nunca ninguém viu um astro quadrado. Seja planeta, animal ou pessoa. Apenas os que não são astros, são quadrados. Por acaso, ou não, até conheço muitos quadrados que se julgam astros. E com tal índice de iluminação que quase cegam.

Rumo

O inferno são olhares perdidos
Em busca de coisas.
Coisas que façam sentido,
Pelo menos qualquer sentido,
Que desfaça mil direcções indefinidas.
Que me leve para bem longe
Da mob que continua sem encontrar rumo,
E que me faz perder o meu.
Sim, talvez lá longe esteja o sentido
Para qualquer coisa ou parte de mim.
E quando o encontrar,
Apenas poderei dizer:
‘Então, tu por aqui?’