segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Notas finais

O acordeão tocou pela última vez. Os bravo diminuiam a cada dia. Peggy sentia-se à mercê, derrotada. O medo tinha sido exigente. Na realidade, não muito mais que os anteriores. Parecia ter durado mil relógios. Não sabia se tinha sido a névoa exagerada daquela erva maricas, ou o bafo quente a álcool, de Hector. Talvez não chegue nunca a saber. Sentada no seu coito, olhou-se de frente no velho reflexo de projecções fundidas. Perguntou-se porquê? Porque não era já a mais bela? A resposta veio sob a forma de uma bala bem no meio da fronte, por entre a franja amarela e a ruga própria de quem já tinha ultrapassado o seu tempo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

My name is Guru.

Depois de décadas de tentativas, expectativas e noites mal dormidas, conheci finalmente um guru. Confesso que fiquei excitado com o facto. Atrevi-me a fazer-lhe uma pergunta, daquelas que só os gurus sabem responder. Tinha esperança de ter uma resposta que me enriquecesse a vidinha, assim num estilo ‘toque de Midas’. Esperei algum tempo e nada. Depois voltei a tentar. Deu-me então, num jeito de campanha eleitoral, alguns momentos da sua atenção. Transpirei nas palmas das mãos e o meu espírito abriu-se em comunhão perfeita com os meus ouvidos, para ouvir sábias palavras. Recebi então palavras, muitas, durante cerca de 10 minutos. Quando ia a meio daquela ode à banalidade, pedi para interromper e perguntei-lhe se era um guru de verdade ou um sósia. Ele confessou-me que o sósia estava no Oriente a palestrar em estrangeiro e que ela era o real. E que ser guru era mesmo isso. Era quase o mesmo que ser Miss Universo. Agradeci esclarecido, e saí a correr, com a promessa de voltar com mais uma pergunta. Daí a 100 anos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Bombista-suicida

Hoje conheci um bombista-suicida. Nunca tinha conhecido nenhum, por isso, fui com cuidado. Mas ao contrário do que eu pensava, este não tinha bombas atadas à cintura, nem nada dessas coisas que os jornalista gostam de descrever com imparcialidade. Tinha enveredado por outra carreira. Gostava de se suicidar em missões contra o tempo. O que se faz em 2 dias, gostava de fazer em apenas 1. Era assim. Estava-lhe no sangue. Diz-se do seu passado que sempre quis tudo em tempo record. Tudo era para ontem. Viveu assim toda a sua curta vida. E quando um dia quis um pouco de tempo para si, o tempo suicidou-se. Com ele.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sindicalisses

Ontem formei o Sindicato dos Pequenos e Médios criadores de palavras e frases. Falei com agentes da lei, gurus em gestão fonética e doutorados em senso comum e todos foram unânimes: havia esta lacuna no nosso sistema exigenciológico. Já tinham inventado sindicatos para tudo, menos para isto. Já me considerava estar atrás de grupos como os Amantes do Meio-Dia e das Senhoras que nunca-pensaram-que-o-mundo-ia-para-além-do-que-se-conhece. Todos eles e elas já faziam as suas exigência há muito. E eu, nada. Assim, impelido por um sentimento de apicidade, voei para um serviço de notariado, daqueles mais trendy, com marca e tudo. Aconteceu tudo muito depressa. Tão depressa, que pouco depois, estava já promovido a sindicalista. E a um sindicalista não podem faltar palavras. Ora, como eu era criador delas, a coisa prometia. A minha primeira exigência, com direito a discurso público, foi vetar o espaço a palavras ignóbeis e cheias de arrogância. Estas palavras, quase sempre, não deixam as outras crescer. Gostam de ocupar o espaço todo, como se o mundo das palavras, e o outro também, fosse todo delas. Era definitivamente um bom ponto para começar. Logo a seguir, neste meu primeiro dia, tive um almoço de trabalho com um grupo de transportadores de palavras dos jornais diários que se sentiam excluídos. Só levavam as palavras até aos confins do país, mas nunca tinham a palavra. Prometi analisar o caso, com o menor número de palavras possível, porque estas coisas querem-se claras, concretas e concisas. a seguir ao almoço, segui para as portas da Assembleia da República das palavras, para tentar pôr em prática a minha primeira medida, mas não fui bem sucedido. Não havia força de grupo. Também, ainda só tinha mais quatro companheiros de luta que angariei por acaso quando desci a Rua Amália, até São Bento. E foi porque se assustaram e se hipnotizaram com uma das minhas palavras ‘Cuidado’, porque vinha um carro que as parecia atropelar. Então, como dizia, as coisas não correram bem. Nem passei das portas de entrada, onde guardas armados, me dirigiram palavras de ordem ‘Sai daqui!’. Palavras fortes e bastante encorpadas essas. Eu como representante dos Pequenos e Médios criadores, não me aguentei. Eram já palavras de Grandes criadores. E o meu tabuleiro de jogo não era esse. Deixei para outro dia. E os meus companheiros acasísticos de circunstância também. Antes do fim da tarde, quse noite, já estava exausto. Essa coisa dos sindicatos não era para mim. Talvez quando um dia me tornar um Grande criador de palavras. Fica prometinado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Em estado de choque

Hoje choquei com um Burocrata. De frente. É verdade que ele vinha na sua faixa de rodagem, sem pisar o traço contínuo, nem sequer uma zebra que estava na berma. Muito direito, confiante e com tiques de superioridade. Saímos de nós e tentámos conversar sobre o evento que acabava de acontecer. Ele vestiu o seu colete laranja de burocrata, colocou o triângulo e começou logo ao ataque. Que não, que aquele papel não servia, que tinha que ser outro a dizer a mesma coisa, mas com outras pessoas a dizer. Eu, manifestamente sem grande experiêcia de pelejar com um adversário deste calibre, tentei argumentar com ideias, algumas de princípios de actuação e de bom-senso, mas sem grande sucesso. Acabei derrotado por knock-out logo no primeiro round. Nem cheguei a ver aquelas senhoras com as placas de números a informar o público, do round seguinte. Enquanto árbitro fazia a contagem, ainda me tentei levantar olhando o Burocrata de frente, mas só com os olhos fez-me ir ao tapete, com mais três regras e quatro decretos que tinha ali na manga. Deixei-me cair, enquanto passava pela humilhação pública de não me conseguir levantar e devolver-lhe tudo em dobro. Afinal, também não tenho a pretensão de ser o Universo que, aliás tem essa mania das devoluções. Fui transportado dali para fora por mim próprio, a custo, e agora já a lutar com a minha própria debilidade. Acho que ainda não me perdoei, ter perdido aquele combate.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cinderela

Se eu fosse a Cinderela tinha-me transformado em Gata Borralheira há cinco minutos atrás. Como não sou, não aconteceu nada. Continuo à espera que uma meia-noite destas me mostre o meu lado B. E quando esse tempo chegar não sei se estou preparado para me conhecer e me descobrir assim tão bem. Talvez prefira estar coberto por uma cortina de meias-verdades que me mostram sempre as mesmas meias-mentiras. Ou talvez não tenha nada para descobrir e apenas descubra que afinal sou exactamente aquilo que se reflecte no espelho. Sem mais nem menos. De uma forma ou de outra, vou tentar não deixar nenhum sapato para trás. Detesto correr descalço.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fosse porque fosse

Mantive-me à porta durante dias. Abre, fecha, abre, fecha. E eu ali. Por baixo outras como eu. Suplicava que o negro cativante e espesso me penetrasse. Sem dó nem pidedade. Ou então que alguma alma benevolente me levasse embalada nas suas mãos. Talvez até preferisse isso. Levada, embalada. Talvez me tornasse um avião e planasse por cima do mundo até acabar o céu. Ou talvez fosso barco e me afundasse à primeira semi-onda no fundo de um alguidar. Talvez fosse apenas bola: intermitente, incoerente, amachucada. Talvez me atirassem para bem longe daquela porta de impressora onde esperava ansiosa o próximo CTRL+P -> Yes.