Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Bombista-suicida
Hoje conheci um bombista-suicida. Nunca tinha conhecido nenhum, por isso, fui com cuidado. Mas ao contrário do que eu pensava, este não tinha bombas atadas à cintura, nem nada dessas coisas que os jornalista gostam de descrever com imparcialidade. Tinha enveredado por outra carreira. Gostava de se suicidar em missões contra o tempo. O que se faz em 2 dias, gostava de fazer em apenas 1. Era assim. Estava-lhe no sangue. Diz-se do seu passado que sempre quis tudo em tempo record. Tudo era para ontem. Viveu assim toda a sua curta vida. E quando um dia quis um pouco de tempo para si, o tempo suicidou-se. Com ele.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Sindicalisses
Ontem formei o Sindicato dos Pequenos e Médios criadores de palavras e frases. Falei com agentes da lei, gurus em gestão fonética e doutorados em senso comum e todos foram unânimes: havia esta lacuna no nosso sistema exigenciológico. Já tinham inventado sindicatos para tudo, menos para isto. Já me considerava estar atrás de grupos como os Amantes do Meio-Dia e das Senhoras que nunca-pensaram-que-o-mundo-ia-para-além-do-que-se-conhece. Todos eles e elas já faziam as suas exigência há muito. E eu, nada. Assim, impelido por um sentimento de apicidade, voei para um serviço de notariado, daqueles mais trendy, com marca e tudo. Aconteceu tudo muito depressa. Tão depressa, que pouco depois, estava já promovido a sindicalista. E a um sindicalista não podem faltar palavras. Ora, como eu era criador delas, a coisa prometia. A minha primeira exigência, com direito a discurso público, foi vetar o espaço a palavras ignóbeis e cheias de arrogância. Estas palavras, quase sempre, não deixam as outras crescer. Gostam de ocupar o espaço todo, como se o mundo das palavras, e o outro também, fosse todo delas. Era definitivamente um bom ponto para começar. Logo a seguir, neste meu primeiro dia, tive um almoço de trabalho com um grupo de transportadores de palavras dos jornais diários que se sentiam excluídos. Só levavam as palavras até aos confins do país, mas nunca tinham a palavra. Prometi analisar o caso, com o menor número de palavras possível, porque estas coisas querem-se claras, concretas e concisas. a seguir ao almoço, segui para as portas da Assembleia da República das palavras, para tentar pôr em prática a minha primeira medida, mas não fui bem sucedido. Não havia força de grupo. Também, ainda só tinha mais quatro companheiros de luta que angariei por acaso quando desci a Rua Amália, até São Bento. E foi porque se assustaram e se hipnotizaram com uma das minhas palavras ‘Cuidado’, porque vinha um carro que as parecia atropelar. Então, como dizia, as coisas não correram bem. Nem passei das portas de entrada, onde guardas armados, me dirigiram palavras de ordem ‘Sai daqui!’. Palavras fortes e bastante encorpadas essas. Eu como representante dos Pequenos e Médios criadores, não me aguentei. Eram já palavras de Grandes criadores. E o meu tabuleiro de jogo não era esse. Deixei para outro dia. E os meus companheiros acasísticos de circunstância também. Antes do fim da tarde, quse noite, já estava exausto. Essa coisa dos sindicatos não era para mim. Talvez quando um dia me tornar um Grande criador de palavras. Fica prometinado.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Em estado de choque
Hoje choquei com um Burocrata. De frente. É verdade que ele vinha na sua faixa de rodagem, sem pisar o traço contínuo, nem sequer uma zebra que estava na berma. Muito direito, confiante e com tiques de superioridade. Saímos de nós e tentámos conversar sobre o evento que acabava de acontecer. Ele vestiu o seu colete laranja de burocrata, colocou o triângulo e começou logo ao ataque. Que não, que aquele papel não servia, que tinha que ser outro a dizer a mesma coisa, mas com outras pessoas a dizer. Eu, manifestamente sem grande experiêcia de pelejar com um adversário deste calibre, tentei argumentar com ideias, algumas de princípios de actuação e de bom-senso, mas sem grande sucesso. Acabei derrotado por knock-out logo no primeiro round. Nem cheguei a ver aquelas senhoras com as placas de números a informar o público, do round seguinte. Enquanto árbitro fazia a contagem, ainda me tentei levantar olhando o Burocrata de frente, mas só com os olhos fez-me ir ao tapete, com mais três regras e quatro decretos que tinha ali na manga. Deixei-me cair, enquanto passava pela humilhação pública de não me conseguir levantar e devolver-lhe tudo em dobro. Afinal, também não tenho a pretensão de ser o Universo que, aliás tem essa mania das devoluções. Fui transportado dali para fora por mim próprio, a custo, e agora já a lutar com a minha própria debilidade. Acho que ainda não me perdoei, ter perdido aquele combate.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Cinderela
Se eu fosse a Cinderela tinha-me transformado em Gata Borralheira há cinco minutos atrás. Como não sou, não aconteceu nada. Continuo à espera que uma meia-noite destas me mostre o meu lado B. E quando esse tempo chegar não sei se estou preparado para me conhecer e me descobrir assim tão bem. Talvez prefira estar coberto por uma cortina de meias-verdades que me mostram sempre as mesmas meias-mentiras. Ou talvez não tenha nada para descobrir e apenas descubra que afinal sou exactamente aquilo que se reflecte no espelho. Sem mais nem menos. De uma forma ou de outra, vou tentar não deixar nenhum sapato para trás. Detesto correr descalço.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Fosse porque fosse
Mantive-me à porta durante dias. Abre, fecha, abre, fecha. E eu ali. Por baixo outras como eu. Suplicava que o negro cativante e espesso me penetrasse. Sem dó nem pidedade. Ou então que alguma alma benevolente me levasse embalada nas suas mãos. Talvez até preferisse isso. Levada, embalada. Talvez me tornasse um avião e planasse por cima do mundo até acabar o céu. Ou talvez fosso barco e me afundasse à primeira semi-onda no fundo de um alguidar. Talvez fosse apenas bola: intermitente, incoerente, amachucada. Talvez me atirassem para bem longe daquela porta de impressora onde esperava ansiosa o próximo CTRL+P -> Yes.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Encartar
Natividade Gaiteiro tinha aviado mais um. Já era o terceiro nessa noite. Estava inspirada. Estudava-os, deitava-lhe olhares insinuantes, mirava-lhes os movimentos e, sem dó nem piedade, eram dela. Foi assim a noite toda. Já tinha ganho o dia e, talvez, até a semana. Baixou-se para colocar na bolsa o resultado da última conquista. ‘Tenho de comprar uma mala maior., pensou mostrando intenção de a levantar, mas sem o conseguir. Levantou-se, olhou o espelho, retocou o tom e bateu coma porta da casa-de-banho. Era hora de voltar a atacar. As cartas estavam a sair-lhe de feição, essa noite.
domingo, 27 de setembro de 2009
Um momento de eleição.
Antonieta acordou com a sensação que tinha o poder de escolher. Por isso, mais alegre que a normalidade dos dias que respirava, levantou-se da cama com uma confiança que não se lhe via há muito. Tomou um banho mais demorado que o habitual, relaxou, escolheu uma roupa bem bonita e atirou-se ao pequeno-almoço natural em pedaços, que foi tirando espaçadamente do frigorífico. Sentou-se, olhou pela janela e deixou-se invadir pela luz da manhã. Depois de sorver o último gole de sumo de cenoura, levantou-se e olhou-se no espelho da entrada. Hoje sim, iria poder escolher. Todos iam poder escolher. Pôr ou não uma cruz a marcar uma posição. Sim, iria fazer. Como há quatro anos não o conseguiu. Fechou a porta com força, mas apenas no trinco. Desceu a escada até ao rés-do-chão e voltou a subir até o último andar. Uma pequena porta dava acesso ao terraço que em tantas ocasiões lhe serviu de companhia. Hoje testemunharia a sua escolha. Antes de olhar para baixo, olharia o destino de frente.
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