Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Cinderela
Se eu fosse a Cinderela tinha-me transformado em Gata Borralheira há cinco minutos atrás. Como não sou, não aconteceu nada. Continuo à espera que uma meia-noite destas me mostre o meu lado B. E quando esse tempo chegar não sei se estou preparado para me conhecer e me descobrir assim tão bem. Talvez prefira estar coberto por uma cortina de meias-verdades que me mostram sempre as mesmas meias-mentiras. Ou talvez não tenha nada para descobrir e apenas descubra que afinal sou exactamente aquilo que se reflecte no espelho. Sem mais nem menos. De uma forma ou de outra, vou tentar não deixar nenhum sapato para trás. Detesto correr descalço.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Fosse porque fosse
Mantive-me à porta durante dias. Abre, fecha, abre, fecha. E eu ali. Por baixo outras como eu. Suplicava que o negro cativante e espesso me penetrasse. Sem dó nem pidedade. Ou então que alguma alma benevolente me levasse embalada nas suas mãos. Talvez até preferisse isso. Levada, embalada. Talvez me tornasse um avião e planasse por cima do mundo até acabar o céu. Ou talvez fosso barco e me afundasse à primeira semi-onda no fundo de um alguidar. Talvez fosse apenas bola: intermitente, incoerente, amachucada. Talvez me atirassem para bem longe daquela porta de impressora onde esperava ansiosa o próximo CTRL+P -> Yes.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Encartar
Natividade Gaiteiro tinha aviado mais um. Já era o terceiro nessa noite. Estava inspirada. Estudava-os, deitava-lhe olhares insinuantes, mirava-lhes os movimentos e, sem dó nem piedade, eram dela. Foi assim a noite toda. Já tinha ganho o dia e, talvez, até a semana. Baixou-se para colocar na bolsa o resultado da última conquista. ‘Tenho de comprar uma mala maior., pensou mostrando intenção de a levantar, mas sem o conseguir. Levantou-se, olhou o espelho, retocou o tom e bateu coma porta da casa-de-banho. Era hora de voltar a atacar. As cartas estavam a sair-lhe de feição, essa noite.
domingo, 27 de setembro de 2009
Um momento de eleição.
Antonieta acordou com a sensação que tinha o poder de escolher. Por isso, mais alegre que a normalidade dos dias que respirava, levantou-se da cama com uma confiança que não se lhe via há muito. Tomou um banho mais demorado que o habitual, relaxou, escolheu uma roupa bem bonita e atirou-se ao pequeno-almoço natural em pedaços, que foi tirando espaçadamente do frigorífico. Sentou-se, olhou pela janela e deixou-se invadir pela luz da manhã. Depois de sorver o último gole de sumo de cenoura, levantou-se e olhou-se no espelho da entrada. Hoje sim, iria poder escolher. Todos iam poder escolher. Pôr ou não uma cruz a marcar uma posição. Sim, iria fazer. Como há quatro anos não o conseguiu. Fechou a porta com força, mas apenas no trinco. Desceu a escada até ao rés-do-chão e voltou a subir até o último andar. Uma pequena porta dava acesso ao terraço que em tantas ocasiões lhe serviu de companhia. Hoje testemunharia a sua escolha. Antes de olhar para baixo, olharia o destino de frente.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Espera
Quando de manhã Filipe acordou percebeu que estava à espera. Esperou algumas horas e nada. Levantou-se, voltou-se a deitar, tornou a levantar-se. Esperou. Olhou em redor e esperou por um sinal. Talvez estivesse enganado e não devesse estar à espera naquele local. Já um pouco irritado perguntou a uma mulher que passava se era ali que se esperava. Ela encolheu os ombros. Filipe avançou mais uns metros e deteve-se na esquina mais próxima. Dali tinha uma visão melhor e de certeza que era o melhor sítio para esperar. E ali ficou mais umas horas. Filipe continuava à espera. Tenho a certeza que era aqui. E nada. Um polícia que, entretanto, parou naquele local disse-lhe que tinha que se afastar que ali não era sítio para se esperar. Afastou-se fugindo ao olhar da autoridade. Afastou-se alguns quarteirões, na esperança de encontrar o melhor sítio para esperar. Parou em frente a uma loja que tinha uma fila de espera. Ainda hoje está lá. À espera.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Cicatrizações
Há duas semanas
abri uma cicatriz. Fazia já muitos anos que não abria nenhuma. Passei toda a
minha vida a fechá-las. Mas desta vez empenhei-me a fundo a abrir esta.
Contratei pessoal habilitado e fechei-me sobre mim próprio. Quando acordei do
transe lá estava ela. Bem aberta. Durante alguns dias andou bem fresquinha e
com tiques de ‘não me toques!’. Mas eu não lhe dei assim tanta importância,
porque mesmo que aberta de propósito, há que fechá-la o quanto antes. Andei de
volta dela, tentando convencê-la que o melhor era fechar. ‘Que não, que ainda
nem tinha duas semanas de actividade, que ainda não tinha vivido o suficiente.?
Queria aspirar ar e levá-lo lá para dentro. Tinha ouvido dizer que o inspirar o
ar purificava por dentro. E eu acrescentei, por dentro e por fora. Por isso,
deixei-a andar mais uns dias, purificar-se um dia de cada vez. Há quem diga
que, por muito que se queira, essa coisa da purificação tem muito que se lhe
diga. Eu acho que se diga e que se faça. Porque não acredito em purificações só
com palavras. É preciso actos. Por isso, deixei-a enganar-se este tempo todo. É
para aprender. Até que ontem disse-me baixinho: ‘olha, fecha-me lá que eu já estou
farta deste sítio e também já estou bem purificadinha’. Olhei-a com desprezo e
fechei-a. Pelo menos foi isso que eu lhe disse.
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