quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Céu cor-de-branco-pálido

Deitei-me na cama para poder olhar o céu de frente. Consegui. Quando o céu se olha assim, parece que a essência do Mundo vem ter connosco. Pelo menos comigo. Mas em vez de azul, o meu céu tinha mudado de cor. Estava pálido. Tinha saído de uma manhã de nevoeiro ou de uma pista de bobsleigh - sempre adorei esta palavra e hoje tinha que a escrever em algum lado. No meu céu desse dia não havia sol, nem pássaros, nem uma nuvem para contar história. Mas, estava cheio de grelhas intermináveis de ares condicionados. Alarmes anti-fogo prestes a disparar tsunamis de água doce se alguém quebrava as regras e voltava a comunicar com fumos. Neste meu céu, cheguei a ver estrelas, quando fui invadido por um movimento profissional de ‘eliminação da sensibilidade’. Ainda resisti, mas fui prontamente chamado à razão. Quanto mais sentires, pior para ti. E deixei-me ir. Embalado até não me sentir. Mas com os olhos bem abertos e a ouvir tudo. Saboreei todos os momentos. Fui e vim. Deixei-me frankesteinear. Não gritei, não me mexi, não fiz nada. Apenas ouvi o realizador ao fundo – ‘Corta’. O céu, esse continuou branco por mais uns dias.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Assim

Que cor viste pela manhã? Quantas vidas viveste antes do meio-dia? Que personagens já foste? Quantos litros de felicidade bebeste do ar que respiras? Quantas vezes foste estrela de TV? Que palavras te disseram mais que um livro inteiro? Que cor tinham os olhos que viram três crianças a puxarem os seus papagaios de papel deixando pegadas de alegria na relva molhada? Que tom de bom-dia trocaste com a senhora do café que te perguntou 'com ou sem adoçante'? Quem te prendeu o olhar com um pequeno traço de ingenuidade? Quem disse que 'é assim' quando pensavas que não era? Quem levou a vida a sério quando ela é um parque de diversões, com entrada livre? Quantas horas eram afinal quando a inspiração te bateu à porta de casa e te pediu para entrar? Quantas vezes gritaste para dentro pensando que ninguém te ouvia? Quando descobriste que hoje era o melhor dia para adiar outra vez o que querias realmente fazer? Quem te disse que o melhor ainda está para vir? Quem te disse o contrário? Quem te disse que a verdade está no meio das duas? Quem te disse que sei onde estás? Quem te disse que o caminho para aí é sempre é linear? Quem te deu essa noção de tempo de séculos? Quem te disse que não apareço aí? Quem te disse que não estou aí neste momento? Talvez hoje ainda nem tenha aberto os olhos. Assim.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

El Tesouras

Durante horas, dias, anos, ele não saía do ginásio, apurando a sua forma. Muito sangue, muito suor e lágrimas que chegaram a encher um garrafão de 5L de Luso. Sempre a dar no ferro, ignorou muitas coisas que a vida lhe podia ter proporcionado. Para aliviar o stress mascava pedaços de macedónia congelada. Em countdown, El Tesouras não ouvia nada nem ninguém, apenas aquele som metálico. E num abrir e fechar de olhos, atirou ao seu alvo de sempre. Errou. A barriga da prima do poeta corou. E não foi de vergonha.

Gomes

O Gomes observou de longe e olhou para cima, como se esperasse um sinal. Esperou uns momentos e nada. Precisava urgentemente de um código que o pudesse decifrar. Ouviu em redor, suspirou e declamou em voz bem alta: ‘nunca guardei rebanhos, mas era como se os guardasse, cheguei à linha de fundo e cruzei. Foi autogolo’.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Borges

Pelo sim, pelo não, Borges jogou pelo seguro. olhou em frente, ajeitou os óculos e avançou. Mas, qual não foi o seu espanto, quando pôs os olhos em tal fenómeno até as glândulas salivares, explodiram em todas as direcções. Borges nunca mais foi o mesmo, Viu, ouviu e passou ao lado. É que o olhar em frente e dar de caras com o passado, não é para todos. Pelo sim, pelo não, é melhor fechar os olhos.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Uma nova vista sobre a cidade.

Túlia não aguentava mais. Chegou-se mais perto e olhou para baixo. A cidade não tinha parado para testemunhar aquele momento. Olhou para a esquerda, depois olhou para a direta. Não vinha ninguém que a pudesse impedir. Respirou bem lá no fundo do seu ser e, como que se despedindo do que lhe era caro, quase nada na verdade, deu um passo atrás e fumou um cigarro. Depois outro e mais outro. Voltou a empoleirar-se. Voltou a dar um passo atrás. E outro à frente. Não, ainda não era hoje que dizia adeus à vida. Deu novamente um passo atrás. Em falso. Afinal a cidade tinha parado para a observar. Para nunca mais voltar a vê-la.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dor de olhos.

Só de ver já me dói. Olhei para o lado e fiquei imóvel. Fixei os olhos. Aquilo incomodava-me, mas não conseguia afastar-me. Fiquei horas a tentar que o meu cérebro ordenasse às minhas pernas, de uma forma lógica e racional, que se pusessem a andar dali para fora. Mas não, não consegui mover-me. E se aquilo me doía por dentro. Talvez um dia me encha de coragem e tome um frasco de analgésicos. Já vou poder olhar. E, de certeza que vai doer menos.