Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Uma nova vista sobre a cidade.
Túlia não aguentava mais. Chegou-se mais perto e olhou para baixo. A cidade não tinha parado para testemunhar aquele momento. Olhou para a esquerda, depois olhou para a direta. Não vinha ninguém que a pudesse impedir. Respirou bem lá no fundo do seu ser e, como que se despedindo do que lhe era caro, quase nada na verdade, deu um passo atrás e fumou um cigarro. Depois outro e mais outro. Voltou a empoleirar-se. Voltou a dar um passo atrás. E outro à frente. Não, ainda não era hoje que dizia adeus à vida. Deu novamente um passo atrás. Em falso. Afinal a cidade tinha parado para a observar. Para nunca mais voltar a vê-la.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Dor de olhos.
Só de ver já me dói. Olhei para o lado e fiquei imóvel. Fixei os olhos. Aquilo incomodava-me, mas não conseguia afastar-me. Fiquei horas a tentar que o meu cérebro ordenasse às minhas pernas, de uma forma lógica e racional, que se pusessem a andar dali para fora. Mas não, não consegui mover-me. E se aquilo me doía por dentro. Talvez um dia me encha de coragem e tome um frasco de analgésicos. Já vou poder olhar. E, de certeza que vai doer menos.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Tourada
No outro dia decidi que ia agarrar o touro pelos cornos. Estudei-o ao pormenor, cheguei-me a ele, olhei-o de frente, bem no meio dos olhos. Não se impressionou, devolvendo-me o olhar com desprezo. Afastou-se uns metros e deitou-se à sombra, baixando-se lentamente. Não me intimidei e segui-o. Voltei a olhá-lo nos olhos, erguendo as duas mãos para os agarrar. Ele voltou a desdenhar-me e a baixar a cabeça. Alguém tinha chegado primeiro.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Tango
Água na boca. O teu nome deixou-me água na boca. Olhei-te. Passei-te de lado para que apenas invadíssemos as nossas distâncias. Sorri-te. Toquei-te com os olhos. De frente, de lado, de todos os lados. Talvez me tivesse inspirado Gardel. Soubera eu dançar e convidava-te para um tango, mesmo que música fosse outra. Deslizaríamos por entre a multidão possuída de outras batidas. Atravessávamos a sala, ou a rua, e chegaríamos sãos, salvos e apaixonados ao outro lado. Agora sim, a dança poderia começar. O palco seria nosso, sempre nosso. Perguntar-te-ia o nome. Tu responderias: ’Que importa?’.
terça-feira, 5 de maio de 2009
terça-feira, 28 de abril de 2009
Rapidinha
Puxei-lhe os cabelos. Dominei-a. Rasguei-lhe as roupas, uma a uma. Desviei-lhe o cabelo, apenas com o olhar. Depois olhei-a nos olhos e disse-lhe em estrangeiro ‘I love you’. De seguida, e sem pedir permissão, levei-a à Lua sem passar pela casa de partida e sem receber €10. Acabei com aquilo e sentei-me. O sol estava a pôr-se. O jantar estava na mesa. Jantámos.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Sal
Diz que conhece Deus por dentro. Vai de quando em quando, de longe em longe. Segue pelo caminho largo que a vida ensinou a trilhar. Ignora as encruzilhadas, como se elas fizessem parte de um destino traçado há momentos. Levanta leves voos rasantes que lhe fazem ver mais de perto. Pirueta por entre os obstáculos da incoerência que reina entre as pedras que se atravessam no seu caminho. Não olha para trás. Detesta sal. Detesta pensar que o que vem de trás dá origem ao que se pode esperar passado um tempo. Leva na bagagem uma mão cheia de ansiedades bacocas que lhe amputam o pensamento. Pára no sinal encarnado. Pára na artéria mais próxima que lhe cobre de paixão um olhar polvilhado pelo medo. Ainda vai longe. Talvez um dia a vida lhe acabe por ensinar que só conhecer Deus pode não chegar. Convém conhecer também os peões que se lhe atravessam no seu lado do passeio.
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