Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Tourada
No outro dia decidi que ia agarrar o touro pelos cornos. Estudei-o ao pormenor, cheguei-me a ele, olhei-o de frente, bem no meio dos olhos. Não se impressionou, devolvendo-me o olhar com desprezo. Afastou-se uns metros e deitou-se à sombra, baixando-se lentamente. Não me intimidei e segui-o. Voltei a olhá-lo nos olhos, erguendo as duas mãos para os agarrar. Ele voltou a desdenhar-me e a baixar a cabeça. Alguém tinha chegado primeiro.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Tango
Água na boca. O teu nome deixou-me água na boca. Olhei-te. Passei-te de lado para que apenas invadíssemos as nossas distâncias. Sorri-te. Toquei-te com os olhos. De frente, de lado, de todos os lados. Talvez me tivesse inspirado Gardel. Soubera eu dançar e convidava-te para um tango, mesmo que música fosse outra. Deslizaríamos por entre a multidão possuída de outras batidas. Atravessávamos a sala, ou a rua, e chegaríamos sãos, salvos e apaixonados ao outro lado. Agora sim, a dança poderia começar. O palco seria nosso, sempre nosso. Perguntar-te-ia o nome. Tu responderias: ’Que importa?’.
terça-feira, 5 de maio de 2009
terça-feira, 28 de abril de 2009
Rapidinha
Puxei-lhe os cabelos. Dominei-a. Rasguei-lhe as roupas, uma a uma. Desviei-lhe o cabelo, apenas com o olhar. Depois olhei-a nos olhos e disse-lhe em estrangeiro ‘I love you’. De seguida, e sem pedir permissão, levei-a à Lua sem passar pela casa de partida e sem receber €10. Acabei com aquilo e sentei-me. O sol estava a pôr-se. O jantar estava na mesa. Jantámos.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Sal
Diz que conhece Deus por dentro. Vai de quando em quando, de longe em longe. Segue pelo caminho largo que a vida ensinou a trilhar. Ignora as encruzilhadas, como se elas fizessem parte de um destino traçado há momentos. Levanta leves voos rasantes que lhe fazem ver mais de perto. Pirueta por entre os obstáculos da incoerência que reina entre as pedras que se atravessam no seu caminho. Não olha para trás. Detesta sal. Detesta pensar que o que vem de trás dá origem ao que se pode esperar passado um tempo. Leva na bagagem uma mão cheia de ansiedades bacocas que lhe amputam o pensamento. Pára no sinal encarnado. Pára na artéria mais próxima que lhe cobre de paixão um olhar polvilhado pelo medo. Ainda vai longe. Talvez um dia a vida lhe acabe por ensinar que só conhecer Deus pode não chegar. Convém conhecer também os peões que se lhe atravessam no seu lado do passeio.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
sexta-feira, 13 de março de 2009
Vazio
Instalou-se o vazio. Veio assim sem avisar. Onde antes brotavam em catadupa, hoje não há nada. Apenas o princípio de coisa nenhuma. Mas, pelo menos já há um princípio, o que até nem é mau. Mas, mesmo um princípio convém que não seja totalmente vazio. Talvez ter uma intençãozita ou outra. Uma ideiazita ou outra. O vazio está cá. Nada, absolutamente nada. Não há cor, não há palavras, não há nada. Nada de nada. Talvez por isso, o ar seja a coisa mais importante que existe. Onde não há nada, há ar. Embora muita gente ande com ar de alguma coisa, no fundo não é nada. Uma vez vi um homem que dava ares de ser importante. Mas, quando percebi, esses ares não eram nada disso. Era importante na rua dele e, acho que tinha um pouco de importância até ao final da esquina. Mas de resto, era só ar. Estou muito preocupado com o ar e com o vazio. Ainda se respira, mas não se está a preencher o vazio com alguma coisa que realmente tenha interesse. E isso ou se encontra ou então, vive-se uma vida cheia de ar. Também não desgosto de, algumas vezes, estar de barriga para o ar a olhar para ele. Como se o pudesse ver. Nada, portanto. O vazio persegue-me. E eu não fujo dele. Pelo menos, não tenho conseguido nos últimos dias. Mas prometo que ainda o vou encher.
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