terça-feira, 28 de abril de 2009

Rapidinha

Puxei-lhe os cabelos. Dominei-a. Rasguei-lhe as roupas, uma a uma. Desviei-lhe o cabelo, apenas com o olhar. Depois olhei-a nos olhos e disse-lhe em estrangeiro ‘I love you’. De seguida, e sem pedir permissão, levei-a à Lua sem passar pela casa de partida e sem receber €10. Acabei com aquilo e sentei-me. O sol estava a pôr-se. O jantar estava na mesa. Jantámos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sal

Diz que conhece Deus por dentro. Vai de quando em quando, de longe em longe. Segue pelo caminho largo que a vida ensinou a trilhar. Ignora as encruzilhadas, como se elas fizessem parte de um destino traçado há momentos. Levanta leves voos rasantes que lhe fazem ver mais de perto. Pirueta por entre os obstáculos da incoerência que reina entre as pedras que se atravessam no seu caminho. Não olha para trás. Detesta sal. Detesta pensar que o que vem de trás dá origem ao que se pode esperar passado um tempo. Leva na bagagem uma mão cheia de ansiedades bacocas que lhe amputam o pensamento. Pára no sinal encarnado. Pára na artéria mais próxima que lhe cobre de paixão um olhar polvilhado pelo medo. Ainda vai longe. Talvez um dia a vida lhe acabe por ensinar que só conhecer Deus pode não chegar. Convém conhecer também os peões que se lhe atravessam no seu lado do passeio.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

hoje

Hoje o dia amanheceu a saber a cerejas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Vazio

Instalou-se o vazio. Veio assim sem avisar. Onde antes brotavam em catadupa, hoje não há nada. Apenas o princípio de coisa nenhuma. Mas, pelo menos já há um princípio, o que até nem é mau. Mas, mesmo um princípio convém que não seja totalmente vazio. Talvez ter uma intençãozita ou outra. Uma ideiazita ou outra. O vazio está cá. Nada, absolutamente nada. Não há cor, não há palavras, não há nada. Nada de nada. Talvez por isso, o ar seja a coisa mais importante que existe. Onde não há nada, há ar. Embora muita gente ande com ar de alguma coisa, no fundo não é nada. Uma vez vi um homem que dava ares de ser importante. Mas, quando percebi, esses ares não eram nada disso. Era importante na rua dele e, acho que tinha um pouco de importância até ao final da esquina. Mas de resto, era só ar. Estou muito preocupado com o ar e com o vazio. Ainda se respira, mas não se está a preencher o vazio com alguma coisa que realmente tenha interesse. E isso ou se encontra ou então, vive-se uma vida cheia de ar. Também não desgosto de, algumas vezes, estar de barriga para o ar a olhar para ele. Como se o pudesse ver. Nada, portanto. O vazio persegue-me. E eu não fujo dele. Pelo menos, não tenho conseguido nos últimos dias. Mas prometo que ainda o vou encher.

6ª feira 13

Na 6ª feira 13, encontrei-me com a sorte.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sala de espera - II

Voltei ao escritório. Hoje os olhares eram ainda mais distantes e crivados no soalho. A imitação da Vieira da Silva continuava no mesmo sítio, a olhar-me da mesma maneira. Acho que já me tirou a pinta.'Olha o gajo da garganta irritada.' Deve pensar que sou hipocondríaco. 'Sou isso e muito mais', respondo-lhe olhando-a defrente. 'E tu não passas de uma imitação. Nem sequer és numerada, vales tanto como uma canção dos ABBA, na versão karaoke.' Mas ela não se ficou e disse-me que nunca iria imitar nada perto disso. 'É verdade, mas sabes, o que prefiro mesmo é ser o original.'

domingo, 1 de março de 2009

sala de espera

Numa sala de espera de um consultório médico meio mundo acontece. Mas não um meio mundo qualquer. Meias-vidas cruzam-se, meio-olhares trocam-se, mais ou menos, sem se tocarem. Sintomas silenciosos de doenças existentes, ou não, instalam-se descaradamente na cara. Tomam a identidade de quem as tem. ‘Lembra-se daquela senhora, a da hérnia?’ ‘Ah!, a D. Antonieta!’. Num consultório médico, em primeiro lugar, somos conhecidos pelos nossos sintomas e, depois quem sabe, por algum dos nossos nomes. Eu, por exemplo, já sou conhecido como sendo o tipo das amigdalites salpicadas com pedaços de stress e algumas pitadas de hipocondria. Sim, reconheço que às vezes tenho a mania das doenças. E com grande pena minha, não é só às 2ªs, 4ªs e 6ªs, mas quando menos se espera. E hoje, e também ontem, não esperava, mas apareceu. Toma lá, assim sem avisar. Num consultório médico, o do costume, com as cadeiras do costume, as revistas do costume, a imitação de Vieira da Silva do costume, lá estou esperando a minha vez. O consultório mesmo cheio de gente, está sempre vazio. Falta-lhe um pouco de vida. Mas também, se ela estivesse totalmente saudável, quem precisaria de aqui estar? Um dia sonhei que nunca ficava doente e que todas as pessoas que eu conhecia também não. E as que não conhecia, igualmente. Os médicos ficaram sem trabalho e tinham-se dedicado às letras, com muito sucesso. O mundo tornava-se um lugar em que as doenças tinham dado lugar às palavras. Os médicos, antes preocupados com a saúde das pessoas, dedicavam-se agora à saúde das letras e das palavras. Em todas as esquinas deste novo mundo se viam médico, felizes, ainda com as suas batas brancas, a dizerem textos em voz alta. Não importava se relembravam os clássicos, os modernos, os mais ou menos ou os desconhecidos, qualquer um era pretexto para se juntarem mais algumas vozes e palavras. As doenças, essas não conseguiram resistir e perderam-se para sempre. Mas, como tudo o que é bom acaba depressa, até elas hão-de voltar. Seja quando eu acordar, seja quando voltar à sala de espera do meu médico. Mas, até lá, vou aproveitar ao máximo cada palavra.