Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Vazio
Instalou-se o vazio. Veio assim sem avisar. Onde antes brotavam em catadupa, hoje não há nada. Apenas o princípio de coisa nenhuma. Mas, pelo menos já há um princípio, o que até nem é mau. Mas, mesmo um princípio convém que não seja totalmente vazio. Talvez ter uma intençãozita ou outra. Uma ideiazita ou outra. O vazio está cá. Nada, absolutamente nada. Não há cor, não há palavras, não há nada. Nada de nada. Talvez por isso, o ar seja a coisa mais importante que existe. Onde não há nada, há ar. Embora muita gente ande com ar de alguma coisa, no fundo não é nada. Uma vez vi um homem que dava ares de ser importante. Mas, quando percebi, esses ares não eram nada disso. Era importante na rua dele e, acho que tinha um pouco de importância até ao final da esquina. Mas de resto, era só ar. Estou muito preocupado com o ar e com o vazio. Ainda se respira, mas não se está a preencher o vazio com alguma coisa que realmente tenha interesse. E isso ou se encontra ou então, vive-se uma vida cheia de ar. Também não desgosto de, algumas vezes, estar de barriga para o ar a olhar para ele. Como se o pudesse ver. Nada, portanto. O vazio persegue-me. E eu não fujo dele. Pelo menos, não tenho conseguido nos últimos dias. Mas prometo que ainda o vou encher.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Sala de espera - II
Voltei ao escritório. Hoje os olhares eram ainda mais distantes e crivados no soalho. A imitação da Vieira da Silva continuava no mesmo sítio, a olhar-me da mesma maneira. Acho que já me tirou a pinta.'Olha o gajo da garganta irritada.' Deve pensar que sou hipocondríaco. 'Sou isso e muito mais', respondo-lhe olhando-a defrente. 'E tu não passas de uma imitação. Nem sequer és numerada, vales tanto como uma canção dos ABBA, na versão karaoke.' Mas ela não se ficou e disse-me que nunca iria imitar nada perto disso. 'É verdade, mas sabes, o que prefiro mesmo é ser o original.'
domingo, 1 de março de 2009
sala de espera
Numa sala de espera de um consultório médico meio mundo acontece. Mas não um meio mundo qualquer. Meias-vidas cruzam-se, meio-olhares trocam-se, mais ou menos, sem se tocarem. Sintomas silenciosos de doenças existentes, ou não, instalam-se descaradamente na cara. Tomam a identidade de quem as tem. ‘Lembra-se daquela senhora, a da hérnia?’ ‘Ah!, a D. Antonieta!’. Num consultório médico, em primeiro lugar, somos conhecidos pelos nossos sintomas e, depois quem sabe, por algum dos nossos nomes. Eu, por exemplo, já sou conhecido como sendo o tipo das amigdalites salpicadas com pedaços de stress e algumas pitadas de hipocondria. Sim, reconheço que às vezes tenho a mania das doenças. E com grande pena minha, não é só às 2ªs, 4ªs e 6ªs, mas quando menos se espera. E hoje, e também ontem, não esperava, mas apareceu. Toma lá, assim sem avisar. Num consultório médico, o do costume, com as cadeiras do costume, as revistas do costume, a imitação de Vieira da Silva do costume, lá estou esperando a minha vez. O consultório mesmo cheio de gente, está sempre vazio. Falta-lhe um pouco de vida. Mas também, se ela estivesse totalmente saudável, quem precisaria de aqui estar? Um dia sonhei que nunca ficava doente e que todas as pessoas que eu conhecia também não. E as que não conhecia, igualmente. Os médicos ficaram sem trabalho e tinham-se dedicado às letras, com muito sucesso. O mundo tornava-se um lugar em que as doenças tinham dado lugar às palavras. Os médicos, antes preocupados com a saúde das pessoas, dedicavam-se agora à saúde das letras e das palavras. Em todas as esquinas deste novo mundo se viam médico, felizes, ainda com as suas batas brancas, a dizerem textos em voz alta. Não importava se relembravam os clássicos, os modernos, os mais ou menos ou os desconhecidos, qualquer um era pretexto para se juntarem mais algumas vozes e palavras. As doenças, essas não conseguiram resistir e perderam-se para sempre. Mas, como tudo o que é bom acaba depressa, até elas hão-de voltar. Seja quando eu acordar, seja quando voltar à sala de espera do meu médico. Mas, até lá, vou aproveitar ao máximo cada palavra.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Esquemas
No outro dia conheci um esquema. Não era daqueles muito complicados. Confessou-me que estava cansado de ser esquema, porque num esquema nunca nada é o que parece. E ele estava farto daquele esquema. Isto de ser um esquema de dois vigaristas baratos é um sufoco. Nunca se dorme tranquilo. Cada dia à espera de ser apenas mais um esquema que se põe a descoberto. Já imaginaram o que é dormir todos os dias sem a certeza que a coisa corre bem no dia a seguir? Dramático. E há também que sustentar a família e com o ordenado que tem hoje é andar sempre a fazer contas. Incerto. E educar pequenos esquemas, cada vez a exigirem mais, não é pêra doce. Um esforço hercúleo. Isto para não falar na vergonha que passa se outros esquemas, bem mais discretos e talvez mais inteligentes, descobrem que foi descoberto. Ainda se fosse um daqueles esquemas que, já só reformados e inimputáveis, parece que se descobrem. ‘Ah, parece que havia para aí uns esquemas...’, mas nunca ninguém aparece a querer falar muito no assunto. Isso sim, é um esquema de classe A. Ou daqueles tipo Madoff que parece que estão ao lado do esquema da autoridade, mas na realidade já a enrolaram por todos os lados. E no fim, ainda fica para a História como um esquema inteligente, sofisticado e muito à frente do seu tempo. Ser um esquema descoberto, mas destes, isso sim. Até vale a pena. Por isso, o esquema que conheci no outro dia é um esquema triste hoje em dia. Não consegue evoluir. No início da sua carreira esquemística era uma jovem promessa deste campeonato. Chegou a ganhar alguns prémios e a receber propostas para ir actuar noutros campeonatos mais competitivos. Mas, por amor à terra e por alguma falta de confiança própria da idade, acabou por rejeitar. 'Ah! não entro em esquemas esquisitos!’ Hoje arrepende-se. Mas acredita que a sua oportunidade ainda vai chegar. Na semana passada, ainda acreditou que era desta quando se chegaram perto dele e lhe perguntaram as horas. ‘Tem horas?’ ‘Sim, são 7 e meia’. Esta era a resposta típica de um esquema que está disposto a sair e encontrar novos desafios. Mas, afinal era mesmo uma pessoa que se tinha esquecido do relógio.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Tudo está bem, quando acaba como já devia ter acabado.
Já era a segunda vez hoje. E a primeira tinha-me deixado uma sensação de mau estar que não consegui digerir nos segundos a seguir. O rapaz, dos seus 20 anos, olhar ausente e odor de quem não se inundava de água tépida, há pelo menos uma semana, ergueu de frente para os meus olhos um folha, com um pequeno texto. Escrito a custo, via-se pela caligrafia muito incerta e, aqui e ali, com falta de força, a mensagem era clara: ‘Ajuda-me por favor. Um pão basta.’ É verdade, não me pediu dinheiro, coisa que aliás detesto, mas apenas um pedaço, mesmo que esquecido, da comida mais elementar e básica dos nossos dias. Farinha e água. E eu não parei, nem o olhei de frente. O jogo de ‘olhos nos olhos’ desgasta-me sempre. Perco sempre no último momento e acabo por ceder. Mas, desta vez nem cedi, nem parei, nem perdi. Mas, nem cinco passos adiante, fui atropelado. Ainda hoje estou para saber, por quê, por quem. Num sotaque da Beira, uma velhota, sim o termo é este, pediu-me uma sandes. E como que se penitencia de algo feito no passado, não lhe ofereci nenhuma sandes. Num acesso instintivo perguntei-lhe? ‘A senhora quer almoçar comigo?’, num tom claro e definitivamente muito frontal. A velhota, talvez já tivesse ultrapassado os 70 anos, olhou para mim como se não me tivesse entendido bem. Talvez pela surpresa de, pela primeira vez em algum tempo, alguém tivesse reparado nela e a tivesse tratado como um pessoa que era. Mas, antes que eu pudesse arrepender-me do convite ela respondeu um ‘sim’ que ainda hoje não me sai da cabeça. Subimos a rua lado a lado, como avó e neto. Não trocámos palavras, mas também não me importava. Precisava realmente de alguém que caminhasse comigo aqueles metros. Entrámos no café e, como que num movimento colectivo e coordenado como um movimento de ginástica colectiva, fez-se silêncio e todos nos olharam. ‘Mesa para dois, por favor’, pedi ao empregado mais perto. Um pouco a custo e com alguma má vontade, indicaram-me a mesa mais ao fundo, a mais sombria. Uma pequena ilha para o isolamento do resto daquele mundo. Sentámo-nos. Tirei o casaco e coloquei-o nas costas da cadeira. Até a cadeira, de uma madeira já gasta, destoava do resto da sala. A velhota sentou-se também, ajeitando o lenço que tinha na cabeça. Peguei na ementa e li-lhe os pratos do dia em voz alta, num acesso de preconceito do analfabetismo da minha convidada. Ela escolheu, sem surpresas, uma sopa, ‘quente, por favor, que o frio até me come os ossos.’ ‘E a seguir?’, perguntei-lhe. ‘Pode ser um arroz com carne que vi ali atrás.’ Tentei entabular uma conversa, tendo recebido alguns sins e nãos alternados e mecânicos.
- Sabe, hoje ia almoçar com alguém - disse-lhe em jeito de confissão
- Sim? E porque é que o menino não foi? - respondeu-me desinteressadamente.
Também me pergunto
Pergunta o quê?
Pergunto-me se devia ter ido ou não
E quem é que vai saber senão o menino?
Pois
Pois, não. O menino ainda é muito novo para estar com essas coisas.
Quais coisas?
Essas coisas de saber se vai ou não vai.
Mas eu estava a ir e ao mesmo tempo a não ir.
Então devia ter ido.
Mas se fosse acabava tudo. E talvez me arrependesse a seguir.
Acabava tudo o quê?
O que comecei há uns anos e consegui manter.
Mas agora está arrependido de não ter ido.
Estou.
Então o que faz aqui com uma velhota como eu?
Almoço.
Eu também.
E a senhora?
O que é que tem?
Quem é?
Sou uma velhota. Alzira. Alzira da Silva.
D. Alzira porque veio comigo?
Tinha fome. E ainda tenho um bocadinho que só a sopa não chega.
Já vem o resto, não se preocupe.
Sim, está bem. Sabe menino já fui muito rica.
Ai sim?
Sim. Mas agora já não sou. Emigrei.
Mas sempre viveu em Portugal, D. Alzira?
Não menino, em Portugal não, eu sou da Beira Baixa. Pedi um café para mim e uma tarte para a D. Alzira. Acompanhei-a à porta. Ela deu-me um beijo e subiu a rua. Eu desci e fui acabar com a minha namorada.
- Sabe, hoje ia almoçar com alguém - disse-lhe em jeito de confissão
- Sim? E porque é que o menino não foi? - respondeu-me desinteressadamente.
Também me pergunto
Pergunta o quê?
Pergunto-me se devia ter ido ou não
E quem é que vai saber senão o menino?
Pois
Pois, não. O menino ainda é muito novo para estar com essas coisas.
Quais coisas?
Essas coisas de saber se vai ou não vai.
Mas eu estava a ir e ao mesmo tempo a não ir.
Então devia ter ido.
Mas se fosse acabava tudo. E talvez me arrependesse a seguir.
Acabava tudo o quê?
O que comecei há uns anos e consegui manter.
Mas agora está arrependido de não ter ido.
Estou.
Então o que faz aqui com uma velhota como eu?
Almoço.
Eu também.
E a senhora?
O que é que tem?
Quem é?
Sou uma velhota. Alzira. Alzira da Silva.
D. Alzira porque veio comigo?
Tinha fome. E ainda tenho um bocadinho que só a sopa não chega.
Já vem o resto, não se preocupe.
Sim, está bem. Sabe menino já fui muito rica.
Ai sim?
Sim. Mas agora já não sou. Emigrei.
Mas sempre viveu em Portugal, D. Alzira?
Não menino, em Portugal não, eu sou da Beira Baixa. Pedi um café para mim e uma tarte para a D. Alzira. Acompanhei-a à porta. Ela deu-me um beijo e subiu a rua. Eu desci e fui acabar com a minha namorada.
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