Era uma vez uma gata. Tão abelhuda, quanto bela. Nessa tarde, o seu coração batita, batia, batia, com um ritmo tão alucinante que parecia não parar nunca. Ela também não queria que parasse, na realidade. Alguém lhe havia roubado dez gramas de beleza. Por isso, por mais que tentasse aquilo não lhe saía da cabeça. Não conseguia estar sossegada. ‘Quem terá sido? Quem terá cometido tamanha desfaçatez?’, perguntou-se a gata milhares de vezes. Pouco depois, recebeu a notícia que o peixe tinha acabado. Logo hoje. Duas coisas no mesmo dia: menos beleza e menos peixe. E aquele salmãozinho tão fresquinho! É melhor que pôr kiwis nos olhos. E foi então que decidiu fazer um lifting e uma cirúrgia estética que é como quem diz, uma plástica. Mas primeiro passou pelo oculista e comprou duas lentes de contacto bem azuis. Quando tudo parecia encarreirar, eis que a sua senhora parecia endoidar: a dançar em sutiã em frente ao besuntoso do segundo andar. ‘Vou-me mas é esconder atrás do espelho, não vá levar com o sutiã, que a bem dizer não me serve de nada, ou com umas boxer em cima. Ai, Deus me livre, boxer não que é cão, ainda se fosse um persa. Mas que se mexesse que os mansos não me levam a lado nenhum.’ Mas, a surpresa estava para vir. Qual sutiã, qual boxer, o que lhe caiu em cima foi o jovem felino do besuntoso que também tinha vindo à festa, para não ficar sózinho. E se era assanhado o menino. O que é certo é que a gata quando se olhou de novo ao espelho nunca mais se lembrou que lhe tinham roubado as dez gramas de beleza.
Um espaço para se escrever por tudo e por nada. Por tudo o que há para dizer e que nada fique por escrever.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Uma folha em branco.
Perante uma folha em branco, tudo pode acontecer. Perante uma folha em branco, bloqueio. Dou voltas. Grito. Normalmente elouqueço. Depois volto a mim. Volto a elouquecer. Acrescentar algo a uma folha em branco é o maior desafio que se pode vencer. Não sei se é da cor ou do medo. Do medo de criar alguma coisa que só tem um admirador. Eu.
O Assassínio de K.
O quarto do primeiro andar estava escuro. A criança dormia já fazia alguns minutos. O poster do Homem-Aranha, colado com pedaços desiguais de fita gomada, protegia o seu sono pueril. Em frente, um Noddy passado do prazo resignava-se com o seu estado jurássico. No chão, alguns carros estacionados fora da garagem, ao lado de um Action Man e uma Tartaruga Ninja. Só se ouvia o som do silêncio da noite. A lua observava de longe, como de costume, iluminando o caminho. Tinha chegado a hora. O Ken tem que morrer. Vou-lhe partir aqueles biceps de plástico ordinário. Benjamim respirou fundo. Pegou nos chupa-chupas pneumáticos e aproximou-se deles. Barbie dormia com dois kiwis nos olhos por causa de duas teimosas rugas que só ela conseguia ver. Ken ressonava alarvemente. ‘Ainda ressonas, fanfarrão? Nem imaginas como vou acabar com essa tua vida insignificante de plástico chinês.’ Nisto, ergueu as armas. Mas quando ia esmagar aquele que considerava o seu adversário, um pesadelo ali perto desperta Barbie. Benjamim hesita e esconde as armas atrás das costas. Barbie assustada e surpresa por ver Benjamim ali tão perto. pergunta-lhe bruscamente ‘Que fazes aqui?’ ‘Ouvi-te agitada e trouxe-te algo para ficares mais calma’, estendendo-lhe os chupas. Com desdém, Barbie aceita-os e leva-os à boca. ‘Detesto ananás, como te atreves? Vai-te inútil!!’ E volta a dormir. De lágrimas nos olhos, Benjamim volta ao seu espaço, inundado pela raiva. Pouco depois, regressa com novo chupa.’Barbie, acorda!’ ‘Tu outra vez!’?’ Trouxe de morango, vês?’ ‘Ah, finalmente acertaste em alguma coisa. Vai, agora podes ir.’ Barbie provou o doce sabor do morango que lhe ia tirar a vida.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Fazer vaquinhas.
No outro dia conheci uma vaca que vivia a crédito. Para produzir leite pediu um empréstimo. Para tirar o leite pediu um empréstimo. Para o embalar pediu um empréstimo. Depois, percebeu que nem sequer era vaca leiteira. Talvez, na melhor das hipóteses, uma intermediária. Nos dias seguintes ainda tentou pedir mais um empréstimo para pagar os outros, mas não conseguiu porque lhe disseram que não tinha ‘futuros’. Nem expectativas nem garantias bancárias. Como tinha perdido o emprego como intermediária, ofereceu-se para modelo, daquelas que estão quietas e muito nuas para serem pintadas pelos meninos e meninas que tiram cursos para saberem pintar melhor. Mas, como era um bocado tímida queria sempre tapar as indecências, coisa que não era permitida. ‘Isto aqui é como a Bolsa de hoje em dia, minha querida. Tudo para baixo.’ Talvez um dia quando acabar a crise possa voltar a ser uma simples vaca, mas continuará a não ter nem dinheiro e, ‘futuros’, quem sabe?.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Por um cabelo.
(os nomes desta história foram alterados para ninguém poder identificar os intervenientes)
Madalena, rapariga-mulher dos seus 29 anos, regressava a casa depois de mais uma noite naquele part-time ridículo e entediante. Pela primeira vez, ia conseguir dormir uma noite inteira ao lado de Zeus. Chegavam ao fim, os sonos mais ou menos tardios no banco de trás de um automóvel emprestado. Sim, Madalena gostava de dormir com Zeus, o seu namorado. Ao contrário do que o nome podia fazer pensar, não era forte e,muito menos, era Deus. Aliás, teve para se chamar Deus se a mulher do registo não tivesse carregado na tecla ao lado. Ficou Zeus, paciência. Madalena até achava graça. Zeus tocou à campaínha e Madalena abriu-lhe a porta com um sorriso. Ele vinha com aquele ar de quem vem passar um fim-de-semana que dura para sempre. Ela serviu-lhe uma limonada, pois Zeus que é Zeus não se mete no álcool. Tirou-lhe o chapéu e beijou-lhe calorosamente a cabeça. De repente, ainda a sua língua deslizava por aquela superfície calva, Madalena gritou: ‘És indecente. Tu prometeste-me que o tiravas!’. Correu para a cozinha e regressou com uma tesoura com que cortou o último cabelo que lhe restava.
Madalena, rapariga-mulher dos seus 29 anos, regressava a casa depois de mais uma noite naquele part-time ridículo e entediante. Pela primeira vez, ia conseguir dormir uma noite inteira ao lado de Zeus. Chegavam ao fim, os sonos mais ou menos tardios no banco de trás de um automóvel emprestado. Sim, Madalena gostava de dormir com Zeus, o seu namorado. Ao contrário do que o nome podia fazer pensar, não era forte e,muito menos, era Deus. Aliás, teve para se chamar Deus se a mulher do registo não tivesse carregado na tecla ao lado. Ficou Zeus, paciência. Madalena até achava graça. Zeus tocou à campaínha e Madalena abriu-lhe a porta com um sorriso. Ele vinha com aquele ar de quem vem passar um fim-de-semana que dura para sempre. Ela serviu-lhe uma limonada, pois Zeus que é Zeus não se mete no álcool. Tirou-lhe o chapéu e beijou-lhe calorosamente a cabeça. De repente, ainda a sua língua deslizava por aquela superfície calva, Madalena gritou: ‘És indecente. Tu prometeste-me que o tiravas!’. Correu para a cozinha e regressou com uma tesoura com que cortou o último cabelo que lhe restava.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
A escada em caracol.
Depois de um almoço bem comido, com direito a gelatina à sobremesa, João e Caddy, o cocker, correm alegremente pela casa. Ao fim do corredor, longo e um pouco escuro, a escada em caracol. Sempre quiseram fazer isto. Mas, por uma razão ou por outra, foram adiando este momento. ‘Empurras tu ou empurro eu?’. Como em tantas outras ocasiões mão e pata unem-se. A mãe, sem perceber que tudo o que sobe também desce, cai abruptamente pela escada em caracol, enrolando-se como pode, para evitar alguns hematomas. Desta vez, foram longe demais. Refugiam-se imóveis, no vão do local do crime, o seu esconderijo habitual. O pai de João, Afonso, alertado por gritos aflitivos de enorme dor, chega ao fundo da escada e percebe o estado grave da sua esposa. Logo agora que era aquele dia da semana em que todas as fantasias vinham ao de cima, depois de João ir dormir. Afonso ligou o 112 e esperou sentado no chão, ao lado de Sofia, pegando-lhe sentidamente na mão. Mas, não tirava os olhos de todos os sítios de onde pudessem surgir os pequenos criminosos. Entretanto, e já com o ar a rarear naquele espaço minúsculo, João e Caddy, permaneciam imóveis, inundados por um misto de culpa, mas também de esperança de não virem a ser descobertos. Uma pequena abertura era agora o seu único contacto com a vida na casa. Contudo, era suficientemente grande para Caddy começar a ficar enervado com as constantes passagens de Gomez, o siamês da vizinha. Gomez que não era parvo, já tinha percebido a cena toda. Era altura de Caddy pagar aquelas maratonas à volta mesa, em que Gomez era uma espécie de isco que corria à frente dos predadores. Caddy vai resistindo como pode, mas a provocação de Gomez torna-se cada vez mais evidente. Num salto, o cocker inicia uma perseguição atrás do gato, esbarrando nas pernas de Afonso. João nunca mais se esqueceu daquele dia. Ficou para sempre tatuado na sua cara. Cinco longos dedos decoraram a sua bochecha, tornando-a ainda mais encarnada. Nunca perdoou a Caddy, esta sua fraqueza de personalidade. A partir desse dia, a mãe coleccionou dedicatórias no gesso e fantasias em todos os outros sítios.
sábado, 18 de outubro de 2008
Escrever bem.
Escrever bem? Não sei o que é. Uns dizem que o Miguel Sousa Tavares escreve bem. Outros, ou os mesmo, dizem que o Saramago escreve mal. Nem sei quais são os critérios. Será seguir regras gramaticais? Sujeito, predicado, complementos. Tudo bate certo com tudo. Se calhar demasiado certo. E dá sempre resto zero. Gosto de ler uns. Não gosto de ler outros. Escrever bem, não sei o que é.
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